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[ENTRE CONTOS E CLÁSSICOS] MACUNAÍMA – O HERÓI SEM NENHUM CARÁTER

Por Francine S. C. Camargo •
sábado, 11 de abril de 2020


Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são.


PARA FUGIR DO COMUM, do metódico e convencional, eis aí uma ótima companhia. Trata-se de um livro de difícil classificação – rapsódia, romance, conto, novela, alegoria, sátira? – mas, definitivamente isso é o que menos importa. Macunaíma, lançado em 1928 e escrito pelo brilhante escritor Mário de Andrade, ainda hoje é um livro que escancara as tendências pelo fato de caminhar por muitas vias sem definição.

No fundo do mato virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do meio da noite.

 Dando o nome à obra, o personagem principal da narrativa – Macunaíma – é descrito como um “herói” (mais próximo do anti-herói) e sua história é contada desde o seu nascimento , passando por todas as suas aventuras, inclusive por aquelas que culminam com suas mortes (sim, no plural, pois são mais de uma e isso não é spoiler) e consequentes renascimentos conseguidos através de transfigurações e remodelamentos do herói. A graça de tudo isso, contudo, é a atmosfera da narração, com entremeios de magia versus realidade, com toques de narrativa popular, com ditos e provérbios e o tom constante de fábula até o final da história.

 A história é contada em 17 capítulos e um epílogo movimentados, ágeis, de forma a prender o leitor. Além da originalidade, é divertida em seus trechos folclóricos, apesar da linguagem regionalista dificultar um pouco o entendimento em algumas passagens, em outras é musical, fala simples e repetitiva; porém há trechos contendo maior erudição e essa mistura se faz bastante interessante.

 Macunaíma, o herói, é complexo. Pode ser sagaz, veloz e sorrateiro quando quer, mas na maior parte do tempo é regido pelos seus instintos: a vingança, a brutalidade, o desapego, a deslealdade, a imoralidade e o erotismo desenfreado. Entretanto, ao longo da narrativa, não só de relações fugazes ele vive, também coleciona perdas e é onde sobressai o mágico, a fantasia e o personagem se engrandece como um sobre-humano.

O presente é uma neblina vasta.

 Depois de tantas idas e vindas, ao final do livro ocorre ainda a nova metamorfose do herói, o que soa pessimista, pois aparentemente ressoa o fracasso do personagem, mas o simbolismo incutido nas últimas páginas denota exatamente a sensação de reencontro após a catarse.

 O livro se propõe a ser um “livro de férias”, como bem insinua o próprio autor. Nele, não há regras. “A gente não escuta as proibições, os temores, os sustos da ciência ou da realidade” (M.A., no prefácio). Parece algo necessário para fugir do momento atual, não?




OUTRAS OBRAS IMPORTANTES DO AUTOR:

- Há uma gota de sangue em cada poema (1917)
- Paulicéia desvairada (1922)
- A escrava que não é Isaura (1925)
- Amar, verbo intransitivo (1927)
- Lira paulistana (1946)
- Contos novos (1947)
- O banquete (1978)

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