Destaques

[FRANCA MENTE] SOBRE O QUE MATAMOS TODOS OS DIAS

Por Francine S. C. Camargo •
domingo, 22 de novembro de 2020

 

 


“Tudo quanto vive provém daquilo que morreu”

(Platão)

 

O quão peritos somos em matanças de tempos em tempos? Em intervalos de dias, semanas, meses, bimestres...quantos assassinatos cometemos?


Destroçamos relacionamentos e, para tanto, muitas vezes, tudo o que precisamos é virar a esquina, a página, bloquear, deixar de seguir, não responder mais. Redirecionamos o leme e seguimos novo curso, para que o algo fique para trás, perdido em ondas sempre iguais; trancamos sentimentos em gavetas e largamos a chave na bagunça mais perdida de nossas mentes, torcendo com descrença disfarçada para que o esquecimento seja nossa salvação. Nós nos viramos do avesso, já socorremos e fomos salvos em algum momento, de modo que nem sempre um ‘tchau’ acanhado caberia mais, após tantas despedidas extemporâneas.


Matamos crenças para dar lugar a novas, não por volubilidade, mas por termos parado para pensar e, consequentemente, mudar de ideia. E por pensar, já não somos mais o que costumávamos ser; não melhores, talvez nem piores, só diferentes. Novas pessoas.


Assassinamos fantasmas que em teoria já estavam prévia e consistentemente mortos, por definição, mas que ainda insistem em viver vidas normais em nossos sótãos, assombrando até a raiz do cabelo. Apesar do espanto, o tempo sempre é oportuno para fechar a cicatriz e deixar de ter medo dos sustos frequentes.


Massacramos, muitas vezes, nossos próprios prazeres, e junto a eles, o amor por quem somos e sempre lutamos para ser; pelo temor ao julgamento e ao virar de olhos, fugimos de nossa plenitude que chora, ri, busca, estuda e goza, desequilibrando assim nossos pilares.


Aniquilamos paixões candentes quando a encruzilhada se projeta adiante, utilizando de uma pontuação mal feita em frases desconexas e com uma pluralidade de interpretações: com tanta emoção e muitos tropeços, melhor seria andar em linha reta, sem precisar desviar dos constantes rasgos na terra em que a gente se estatela e tem dificuldade de se empertigar depois.


Há tantas devastações antes da morte de fato, mortes parciais com posteriores renascimentos, o velho criar e destruir que dá movimento rotativo à vida. Morremos tanto nos ontens que aspiramos pela vida nos amanhãs e lá estamos no futuro novamente morrendo e matando. Para as incontáveis mortes que nós registramos, não há segredo, pois a energia flui e abraçará outro ponto de partida, outra vida, essa sim indefinível.


Se as crenças falecerem, que se possa, a partir disso, criar novas certezas. Se a esperança deu seu último suspiro, é possível ventilá-la de forma invasiva e garantir um descanso enquanto ela se recupera e volta a funcionar em sua completude. Se os sonhos se extinguirem, pura ilusão, eles estão lá, é só matéria de voltar a vê-los. Agora se o amor parecer morrer...ah, que ilusão! Ele não morre, não, só hiberna. E transmuta.

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DOMINGO, O RESSURGIMENTO DAS TRAMAS URBANAS

Por Salvattore Mairton •
terça-feira, 17 de novembro de 2020


Título: Domingo
Autor: Eduardo Lens
Editora: Penalux
Páginas: 223
Onde Comprar: Livraria Penalux


Amigos e amigas, na resenha do dia de hoje, resolvemos trazer uma obra bastante simples, mas que traz uma mensagem de força e superação em meios as adversidades da vida cotidiana. Domingo, do autor Eduardo Sena, publicado pela Penalux, é uma obra que brinca com o enredo urbano e um personagem peculiar. 

Resumindo o conjunto da obra, temos Domingo e sua esposa tendo que sair da zona de conforto, seu lar por anos, para um futuro apartamento que seria construído. Até lá, eles tem que viver em uma casa cedida pela construtora enquanto aguardam. Nesse meio tempo Domingo tem que lutar contra sua própria mente, que fica perdida com essa mudança de ambiente e de status.

Durante a leitura, senti um pouco de Mazaropi no personagem protagonista, mas em um ambiente urbano. Afinal Domingo tem um pouco do ser caipira, que está acostumado com a rotina e que qualquer coisa que a mude, acaba por desandar todo o resto. Enquanto espera sua nova morada, Domingo ouve histórias de seus antigos amigos e tem várias lembranças de histórias vividas em sua antiga casa. 

Quem lê está obra, estará dando a oportunidade para um tipo de leitura que flerta com alguns clássicos da Literatura, sem deixar de lado o tempo moderno. Eduardo Lens é claro em sua escrita e tem uma maneira diferente ao descrever cenários e personagens, o que fará o leitor se sentir parte de tudo, como estivesse vendo e sentindo tudo que acontece com aquela pequena família. 

A diagramação da obra é belíssima, folhas amareladas e uma fonte bastante agradável, bem ao estilo da Penalux. A capa é simples, mas aconchegante como toda história. Vale a pena conferir esta leitura. 

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O mundo secreto em público

Por Leandro Salgentelli •
domingo, 1 de novembro de 2020

 


Ela tocava o braço dele toda vez que observa alguém chegando. Era como se fosse um código entre eles “amor, olha quem chegou”, e com o olhar mais afetuoso do mundo, naquele silêncio multo, ambos se compreendiam. Ela ia conversar com amigos que tempos não havia e ele a observava do outro lado da sala. Tinha momentos que brindavam à distância, sutilmente. Seus olhares se encontravam. Mas não era nada exatamente sexual ou possessivo. Era um amor dito sem vocabulário.
Houve um momento em que eles se aproximaram, eu estava encostado num canto pouco notório, então ela arrumou a máscara dele e disse: “vida, você colocou do lado ao contrário”, e ele riu. E eu ri também. Porque havia uma cumplicidade ali que não era comum.
Perguntaram se eu queria mais bebida, eu disse que não, já era minha terceira taça de vinho, era melhor não abusar da docilidade. Ela se aproximou mais um pouco e disse que soube por um acaso que tinha publicado um livro e perguntou sobre o que eu escrevia. Foi à brecha que encontrei para dizer sobre o que tinha de tão especial neles.
Era uma festa com pequenos agregados ocasionais e fui rendido pela insistência de alguns amigos. E que bom que me rendi. Sai de lá embriagado com tanta esperança. No caminho de casa me lembrei de quando presenciava alguma briga de casal em um tom fora do normal, seja na rua, em família, em qualquer lugar; lembro-me de passar a mão pelo cabelo e rir dizendo internamente “ah, é por isso que vou morrer sozinho”, e saia andando me sentido a pessoa mais privilegiada do mundo, o esnobe dos esnobes.
No entanto, presenciar aquele momento secreto em público daquele casal, me fez repensar aquela pequena frase cheia de deboche. Porque, passar pela vida sozinho, sem vivenciar as paixões e os amores que certamente a vida nos traz, não é algo para se ter orgulho. A privação, como o próximo substantivo diz, só nos distancia do que pode ser extraordinário. Relacionamentos são complicados, mas pode ser também a arte de fazer acordos. Para isso basta que ambos estejam dispostos.
E aquele casal certamente esteve algum dia dispostos para chegar a essa maturidade afetiva e emocional. Para se render à cumplicidade do gesto, para celebrar, cada um de um lado da sala, esse sentimento puro, mágico e secreto.
Não sei quanto tempo estão juntos. Não soube o que fizeram para chegar nessa divindade amorosa despercebida —, ou percebida, mas por poucos. Não sei se ficarão juntos pela eternidade, um cuidando do outro. Não sei se eles se preocupam em ser modernos ou eternos. O que sei é que a cumplicidade que consegue capturar naqueles pequenos instantes não tem a ver com dinheiro, com beleza, com status social, com nada daquilo que é palpável.
E o que eu soube, também, naquele momento, é o que almejo em um relacionamento, o que certamente justifica por ainda estar solteiro.


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Expectativa e exigências

Por Leandro Salgentelli •
segunda-feira, 12 de outubro de 2020


Eu estava conversando com o gerente do banco quando fui surpreendido pelos gatilhos do inconsciente. Ele me tratava com uma gentileza descomunal, falava pausadamente olhando no fundo dos meus olhos, chegou algumas vezes a tocar minha mão a fim de confirmar se estava sendo compreendido. Olhei para os outros gerentes para ver se tratavam os demais da mesma maneira — vai ver era um novo protocolo da agência para que ao final do atendimento avaliássemos com nota mil. Mas não: os demais não fazia isso. Sua gentileza era tão provocativa que cheguei a cogitar que estava flertando comigo. Ora, ora, não pode ser.

A gente se assusta com gentileza demasiada porque nesse mundo de arranha-céus estão todos preocupados com o próprio umbigo e, também, porque a gente sabe que não é nada fácil lidar com pessoas, o entre e sai nas agências tornam os diálogos automáticos e apressados.

No entanto, ainda fazendo as mudanças cadastrais, falei comigo mesmo: “como sua expectativa anda alta demais, né, Leandro?”. O gerente não estava flertando comigo. Acontece que muitas vezes a gente confunde educação com expectativa, educação com exigência ou até mesmo educação com carência. Basta que percebamos nosso emocional para que identifiquemos em que ponto nós estamos.

Existem impulsos internos que nos levam a determinados comportamentos. É muito comum isso acontecer. Às vezes você vai exigir do seu parceiro mais presença, mais atenção e ficar irritada porque na verdade ele pode não corresponder a uma expectativa que era somente sua. Às vezes você vai confundir gentileza como se o ato fosse um impulso erótico, mas na verdade, é carência. Que atenção é essa que te falta? Que vazio é esse que não se preenche?

É claro que às vezes o rapaz vai flertar com você, e é claro que você vai saber quando isso acontecer. Mas quando tiver dúvida, pergunte a si mesma: será? Muita das vezes a reação que você tem sobre o comportamento do outro pode estar muito ligado ao que se processa na sua cachola. Tem muito mais a ver sobre o que se passa com a gente do que sobre o outro. 

Da série das coisas que a gente aprende com a vida, é bom ficar atento.

Mas daí eu defendo outro ponto também: que é da-mesma-série-das-coisas-que-a-gente-aprende-com-a-vida: após muito nos relacionarmos, nossos níveis de exigências sobre o outro aumentam também. Mas me refiro às características que a gente não tolera mais. Se o cara é invasivo, exige explicações dos seus silêncios, hum, entendo se você não responder mais as mensagens dele. Você já sabe onde isso vai chegar.

Meu nível de exigências tem aumentado muito, e é claro que essas exigências acompanham nosso amadurecimento emocional que vai, aos poucos, tentando organizar a biografia desajeitada.

Nos primeiros diálogos com alguém nesses aplicativos de relacionamentos, descubro facilmente onde posso me enfiar. Eu que rejeito a tudo aquilo que não for simples, a uma boa conversa, me vejo afastando das pessoas por razões tão pequenas. Exigências demais? Ou estou procurando a autoafirmação? Sinais da independência, que penumbra sobre o famoso "aí de mim"?

Sei que tudo isso seria assunto para outro texto, mas ele se encaixa perfeitamente nessa escada que a gente, curiosamente, vai subindo na vida, ou personificando, o que acredito que seja.

Percebo que cheguei a uma etapa onde se instalou o exprobo. Uma boa conversa tem valido mais que sexo. Eu não tenho mais sede por noitadas. Meu desinteresse tem acompanhado meu estado físico e emocional, porque me assusta a ideia do amor longevo e me arrepia a ideia de amores que entram e saem da minha vida do dia para a noite.

Enfim, era para sair um texto banal e acabou se transformando nessa filosofia caótica, que é a vida, essas exigências que impomos dia a dia.

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ALICE JÚNIOR, SOU TRANS E SOU RESISTÊNCIA. CONHEÇA O FILME NACIONAL PREMIADO INTERNACIONALMENTE

Por Salvattore Mairton •
quinta-feira, 24 de setembro de 2020



Título: Alice Júnior

Duração: 1h27min

Ano: 2020

Onde Assistir: Cinema, Now e YouTube (Aluguel por R$6,90)



Alice Júnior é uma youtuber trans cercada de liberdades e mimos. Depois de se mudar com o pai para uma pequena cidade onde a escola parece ter parado no tempo, a jovem precisa sobreviver ao ensino médio e ao preconceito para conquistar seu maior desejo: dar o primeiro beijo.


Olá queridos e queridas, dessa vez resolvi fugir um pouco das resenhas literárias e trazer uma dica de um filme maravilhoso que necessita ser visto por todos: Alice Júnior. 


Alice Júnior é um premiadissimo longa nacional que mostra a adolescência de uma garota trans na busca pelo seu primeiro beijo e conquista de seu espaço no mundo. A qualidade do filme já se inicia em sua premissa, afinal temos  uma trans retratada em seu convivio normal na sociedade, sem todo aquele esteriótipo que costumam fixar em personagens deste tipo. Alice, vivida por Anne Celestino, é apenas uma garota comum que quer beijar e mostrar ao mundo o seu poder de vencer as adversidades, mas claro, que em seu caminho teria que esbarrar com o preconceito e falta de informação sobre seu gênero. 


Alice, é uma adolescente influencer e que tem todos os desejos de sua idade: amores platônicos, dúvidas sexuais e diversões com amigos. Mas tudo se transforma, quando precisa mudar-se com seu pai para uma pequena cidade do Rio Grande do Sul, onde terá que se acostumar com uma nova escola que não a aceita como é, uma garota. A partir daí temos o desenrolar de novas amizades, conflitos e desejos, mas que com Alice seria vivido do seu jeito, com bastante intensidade. 



O filme encanta o espectador pelas cenas leves e divertidas, porém sem perder a mão de mostrar a vida de uma trans na sociedade preconceituosa que vivemos. O cineasta possuí uma grande delicadeza ao mostrar uma personagem trans retratada simplesmente com uma adolescente que ainda não encontrou seu lugar no mundo, mas que já sabe bem o quer: ser ela mesma. 


Destaque para a atriz principal que vive um personagem que passa tudo pelo que ela já passou ou ainda passa por se identificar como garota, quando muitos não a aceitam assim. A coragem de lutar contra o preconceito e a falta de conhecimento de muitos é a marca de Alice e isso é mostrado durante todo o filme. Outro grande destaque é a trilha sonora, que soa divertida e emocionante em alguns momentos do longa.

 

Alice Júnior está em destaque na mídia pelos seus vários prêmios conquistados pelo mundo em diversos festivais. Já sendo premiado nós EUA, Alemanha, Espanha, Portugal e outros mais. 


Hoje o filme se encontra em cartaz em diversos cinemas do Brasil, principalmente em Drive-ins, porém quem não deseja sair de casa pode ver o filme pelo Now, Vivo Play, Oi Play ou alugar no YouTube. No YouTube você pode alugar o filme pelo valor simbólico de R$6,90, simplesmente muito barato para o filme magnífico que vocês irão apreciar. 


Enfim, Alice Júnior tem que se apreciado e vivenciado em sua totalidade, para que todos possam apreciar a obra prima nacional que temos em cartaz. Simplesmente incrível. 



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RESISTÊNCIA, HUMANISMO, BELEZA E VERDADE CONHEÇA MULHERES DE SÃO PETERBURGO

Por Adriano Silva •
quarta-feira, 23 de setembro de 2020


Resenha: Mulheres de São Petersburgo

Autor: Álvaro Alves de Faria

Editora: Penalux

Compre aqui:Mulheres de São Petersburgo


 "Mulheres de São Petersburgo" é um livro de poesia do escritor Álvaro Alves de Farias que faz uma ode as mulheres, principalmente aquelas estrelas de Hollywood.

São diversas poesias com nome de mulheres e algumas chamam bastante a atenção:


“Das 34 vezes que dormiu comigo

Raquel arrependia-se de seu amor

e batia com as mãos nos espelhos

maldizendo seu destino

por ter me encontrado na vida”

 Raquel – pág 13

 


Algumas poesias o autor deixa sua marca de erotismo evidente e protagoniza seus melhores versos;


“Sua língua me percorre

e ao gozar me assassina

e com seu gole mais certeiro me engole a vida’

 Mulher de Paris – pág 19

 


Outro ponto que é bem interessante é que o autor nunca é vulgar em seus versos. A mulher, em suas linhas, é sempre dona de si, guerreiras, ilustres ou desconhecidas e mesmo quando o Eu Lírico, claramente é a persona do autor, este nunca é machista, como no verso a seguir que achei bem interessante:

 

“Carmem sentiu seu gozo

Como se fosse morrer.

Quando voltei a mim

Carmem tinha partido para Portugal

Deixando−me uma carta de afetos

Em cima do móvel da sala”

Carmem – pág 87


Mulheres de São Petersburgo é bem escrito, algumas poucas poesias não fazem sentido. Pode ser, de fato, um livro que não agradará a todos os públicos, ou até mesmo quem aprecia Poesia, já que é uma obra com traços autobiográficos, o que não é um ponto negativo, mas que limita bastante e pode causar desinteresse de leitores mais novos.

 

Como já citado, Álvaro é um exímio Poeta, consegue dosar bem os textos mais sexuais e se coloca sempre em uma situação de não um conquistador que leva várias mulheres à cama ( a maior parte das poesias tem esse envolvimento afetivo−sexual−carnal), mas de alguém que é encantado por elas e quase sempre deixado.

 

O livro tem 102 páginas. A capa consegue transmitir bem a ideia de mulheres de várias etnias, raças e credos com imagens de pontos famosos mundialmente conhecidos. A fonte é confortável par a leitura e não existe um erro de revisão em toda obra, o que é positivo e continua a nos surpreender na Penalux.

 

Leitura recomendada para amantes de boa Poesia e, principalmente, de mulheres.






Sinopse:

SINOPSE: Mulheres de São Petersburgo reflete a vivência (e multividência) do feminino plural ou o trailer hollyoodiano das musas do poeta – a experiência da palavra vivida, imaginada, transfigurada, sentida, idealizada, fruto do diálogo com a própria alma, a mulher interior. [...] o livro traduz a jornada do grande poeta e desvela o viajor na rota do sublime, exibindo a multiplicidade da experiência modelada sob os signos formais de angustiante beleza, extrema delicadeza (essa força superior e sutil da força) e refinado senso estético. [...] Solitário, puro e autêntico em sua totalidade criadora, Álvaro Alves de Faria, com Mulheres de São Petersburgo, reafirma aos leitores e às novas gerações, o valor inquebrantável da dedicação a poesia e a estatura superior atingida pela plenitude da linguagem em direção à novas estações do verbo. Resistência e humanismo, beleza e verdade, a lição que continua a pregar nas trincheiras líricas de sua revelação. [Luís Augusto Cassas]





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[FRANCA MENTE] OS DEVOLVIDOS

Por Francine S. C. Camargo •
domingo, 20 de setembro de 2020


           

No epílogo da tarde, quando a escuridão já começava a delinear o seu enredo, nós acordamos. Os olhos ardiam após dias ininterruptos em que as pálpebras se uniram, findada a despedida; tínhamos os lábios rachados e a boca seca, com sede voraz quase a ocultar os demais sentidos, de tão intensa; odores não sentíamos, orelhas se compungiam pelo não mais ouvido, enquanto algumas dezenas de pernas se arrastavam descoordenadas, com pouca pressa, detendo os passos em uma marcha rasteira, entretanto com um propósito claro: chegar ali, bem ali, a pouco mais de vinte passos, do portão negro do cemitério.


Era o portão principal de acesso à grande enfermaria dos mortos, por onde passavam todos os dias visitantes saudosos, trabalhadores, cúmplices e novos vizinhos. Em tempos atuais, ouvimos alguém comentar - como quem não faz questão de prestar atenção na conversa alheia, mas isso ocorre inevitavelmente – que a entrada já estaria fechada a essa hora do dia, antecipando o romper da noite, impedindo a chegada de qualquer um a perturbar o descanso já bastante descansado das almas que aqui jazem. Regra nenhuma havia, no entanto, a bloquear qualquer trânsito na direção oposta. Fato: não era o portão da entrada o que tanto objetivávamos, pois para nós, ele se intitulava unicamente como O Portão de Saída.


Vejam bem, não se tratava de uma horda de zumbis. Oh, por favor, não nos encarem como mortos-vivos, almas penadas, assombrações, espectros de indivíduos que não encontraram sua paz, que não terminaram seus deveres, que ainda têm algo pendente a resolver. Deveres até os temos, mas vocês não imaginam quão exaustivo foi todo o processo de seleção, a quantas reuniões nos submetemos, em quantas eleições votamos e a quantidade de avaliações teóricas e práticas que todos nós fizemos para estarmos aptos a sair dessa necrópole. Sem exceções, todos tiveram chances iguais, mas, ao final do processo, poucos foram os escolhidos.


De modo que somos em treze. Treze resgatados. Treze desistentes do plano A e retomados no Plano B. Porque o plano A era continuarmos mortos, uma vez que era esse o desígnio que nos foi imposto e o Plano B será uma repescagem de mais alguns anos vivendo fora daqui. Somos treze na arte de tentar contornar os planos alheios e garantir um pouco mais de vida livre. Ou como preferimos nos autointitular, os Treze Devolvidos.


Um de nós é o Ledo (o contente), outro é Bamba ( o sábio). Temos Dolores ( a sensível), Sintoni (o empático), Idea (a sonhadora), Tino (o inteligente), Belo (o formoso), Lhano (o leal), Serena (a paciente), Anima (a otimista) e Amor (o próprio, esse que a vocês conta a história, tal como aconteceu). Para completar o time, vieram de mãos dadas, após anos de relacionamento em épocas remotas, Benê (a bondosa) e Franco (nosso mais honesto morador).


Ao chegarmos ainda um pouco desengonçados ao átrio, todos paramos. Foi Anima, a otimista, quem empurrou o portão, enquanto escutamos todos em silêncio aquele rangido longo e cheio de emoção. Talvez nosso tempo passasse diferente, então não seria possível descrever nessa narração os minutos exatos que transcorreram enquanto reaprendíamos o inspire/expire e deixávamos que nossos sentidos recobrassem suas funções. Olhamos incansáveis uns aos outros, tentando adivinhar quem daria o primeiro passo, pois nossa estratégia estava desenhada apenas até ali, um pouco por falta de conhecimento do mundo externo, um pouco porque se houve algum aprendizado que pudemos obter por estarmos aqui foi: quer fazer Deus rir, faça planos...


– Vamos colocar nossos pés lá fora e então, escutar o que há para ser escutado, enxergar o que há para ser enxergado, tocar aquilo que se permite ser tocado, sentir o que houver para sentir, entender o que puder ser entendido.


Era Bamba que falava e, sem questionar, todos assentiram.


Então paramos, naquele ponto em que estávamos. E o mundo se descortinou, exibindo-se nu para todos nós que o assistíamos.


Vimos uma dor muito dolorida enternecendo e apequenando algumas pessoas. Ao redor dessas, muitos observavam, mas quase ninguém chorava junto. A uma pequena distância dessa dor, havia uma parede bloqueando a visão de novos rostos, mas pudemos ver dedos em riste: era para os seres doridos que apontavam, deles que debochavam, era a eles que julgavam, cuspindo o que chamavam de “nossa moral” e digitando ódio e escárnio pelas telas de seus aparelhos móveis.


– É ali que vou ficar – antecipou-se Sintoni, o empático. Junto a ele, caminhou  Dolores, a sensível.


Vimos rostos fechados, em melancolia. Vimos pessoas acreditando nas primeiras linhas que liam, sem crítica ou contestação. Vimos educadores se virando do avesso para tentar suprir as limitações das telas, ao mesmo tempo em que eram alvo de reclamações pelo que era possível fazer.


– Precisamos ficar por aqui mesmo – era a vez de Tino, o inteligente, acompanhado de Ledo.


Vimos solidão e medo, pessoas enclausuradas dentro de suas casas, fazendo de seus corpos o próprio casulo, existindo sem ser. Tinham pensamentos constantes do fim, de desistir, de desesperança e inutilidade.


Foi onde Anima, a otimista, e Idea, a sonhadora, permaneceram.


Vimos doença, vimos incerteza, vimos ausência de cura. Vimos boatos, vimos mentiras, vimos desinteresse em governar para os outros e interesse demais em governar para si mesmo.


É escusado dizer que nos despedimos de Franco, o honesto, e Serena, a paciente bem ali.


Vimos valores sendo quebrados, amizades desfeitas por palavras atravessadas, frases repetidas da boca pra fora, bandeiras sendo erguidas por 2 ou 3 segundos e esquecidas dentro de um caixa ao final do dia.


– Fico por aqui – impôs-se Lhano, o leal.


Vimos muitos comentários, opiniões, regras, conselhos sobre o hoje, sobre o ontem, sobre o dólar, sobre a mídia, sobre o corpo e sobre o batom, sobre a buzina, sobre o cachorro, sobre a pele, sobre o botox, sobre a roupa, sobre a cor, sobre o namoro, sobre o sexo, sobre o que pode, sobre o que não pode. Liberdade vimos pouca, muito pouca mesmo. Parecia bem difícil ser você mesmo nesses tempos. Vimos muita maldade sendo aplaudida, então Benê, a bondosa, ficou exatamente ali.


Belo, o formoso, caminhou incansável por todos os cantos, a fim de lembrar das belezas do mundo: as folhas cantantes, as cores exuberantes da natureza, céu e mar se beijando todos os dias sem que se percebam, ventos que sopram seus murmúrios de esperança, Sol e Lua com seus aspectos divinais e capazes de iluminar os caminhos mais escuros; água, terra, ar e fogo se unindo ao espírito.


Bamba, o sábio, contudo, continuou em frente ao portão.


– Meu tempo ainda há de vir. Vou retornar e me deitar enquanto espero. Há muito trabalho para todos vocês, até que eu possa me fazer presente.


Dizendo isso, retornou lentamente a sua sepultura, com o olhar ao céu em todo o trajeto, cantarolando algumas canções antigas, sem receio de desafinar.


Quanto a mim, Amor, designado em mim mesmo, entendi que, mais do que estar em todos os lugares, melhor faria se me dividisse em pedaços, em quantas míseras fatias fossem suficientes para repaginar cada vida em desalinho. E assim, dividido em infinitos pontos, me dispersei sem pressa de me reconstituir e o curioso é que só me multipliquei e cresci, tornando-me muitas formas completas de mim mesmo.


***


Desde então, o mundo foi sendo repovoado, aos poucos, por empatia, inteligência, alegria, otimismo, sonho, honestidade, paciência, lealdade, bondade, beleza, sensibilidade e amor, embora os Devolvidos saibam que anos passarão até atingirem o seu intuito. Mas não há urgência, já que foram escolhidos para um longo trabalho. Quando tudo estiver reconstruído, talvez muito mais pessoas carreguem um pouco de sabedoria e saibam que, ao final, tudo que nos restará é descansar.


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