OLHOS D'ÁGUA, UM LIVRO QUE VOCÊ PRECISA LER HOJE

Por: Adriano Silva - 19:33



Título da Obra: Olhos D'água
Autor (a): Conceição Evaristo
Ano da Publicação: 2014
Nº de Páginas: 116
Editora: Pallas
Onde Comprar: AMAZON AMERICANAS | SUBMARINO

Em "Olhos d’água" Conceição Evaristo ajusta o foco de seu interesse na população afro-brasileira abordando, sem meias palavras, a pobreza e a violência urbana que a acometem.


CONCEIÇÃO EVARISTO É UMA das principais vozes negras da literatura nacional dos últimos anos. A mineira de Belo Horizonte, mudou-se ainda muito jovem para o Rio de Janeiro. Conciliou os trabalhos como empregada doméstica com os estudos, formando-se em 1971 no antigo Normal Superior, cursou Letras na UFRJ e passou em concurso público. Mestre em Literatura pela PUC e Doutorada em Literatura Comparada pela UFF.

 O romance Ponciá Vicêncio, de 2003, abordam temas como a discriminação racial, de gênero e de classe. A obra foi traduzida para o inglês e publicada nos Estados Unidos em 2007. Atualmente leciona na UFMG como professora visitante.

 OLHOS D'ÁGUA, obra que estamos resenhando nesse momento, foi escrita em 2014 e publicada pela editora Pallas
Imagem relacionada
crédito de imagem: Livro e Café
Os assaltantes desceram rápido. Maria olhou saudosa e desesperada para o primeiro. Foi quando uma voz acordou a coragem dos demais. Alguém gritou que aquela puta safada lá da frente conhecia os assaltantes.
(Maria Davenga) 

 A obra trata em seus 15 contos dos sofrimentos e adversidades que os protagonistas, em sua totalidade mulheres negras, vivenciam em suas vidas em comunidades carentes frente à violência, a morte e o amor.

 No conto Maria, uma empregada doméstica que volta para casa depois de um dia de trabalho, é um dos mais inquietantes, se tem a seguinte passagem.

 Conceição aborda o tema estupro em 'Quantos filhos Natalina teve?'. A personagem desse conto engravida várias vezes, vira mãe de aluguel dos patrões, vê-se obrigada a dar os filhos a desconhecidos, no desfecho da trama, acaba sendo estuprada. O final deste conto é bem chocante, aliás, todos os contos possuem um final inesperado e, quase sempre, violento.

 O conto 'Di lixão', o adolescente recorda-se da mãe que lhe espancava. Não gostava dela, mas quando é acometido de dores lancinantes, ele se deita “retomando a posição de feto”, como a buscar subconscientemente o colo de uma mãe que não existe mais. Em Os amores de Kimbá, eu definitivamente amei este conto, nem mesmo o referencial feminino que Kimbá conhece entre os seus permite-lhe que escape ao trágico relacionamento a três que vive com Beth e Gustavo. Um dos poucos contos que a autora abordou a homossexualidade masculina de forma sutil.       

 Em 'A gente combinamos de não morrer' (recomendo muito a leitura desse conto). Também é uma mulher anônima que tenta salvar a vida de Ardoca, um homem “cansado por todos os dias, todos os trabalhos, e por toda a vida”. Algumas cenas mostradas na história de 'Ei, Ardoca' lembram “Uma vela para Dario”, de Dalton Trevisan, principalmente no que concerne à morte de um homem em local público e à espoliação de seus pertences.

A morte incendeia a vida, como essa estopa fosse. Molambos erigem fumaça no ar. Na lixeira, corpos são incinerados. A vida é capim, mato, lixo, é pele e cabelo. É e não é.
 (A gente combinamos de não morrer)


Escrever é uma maneira de sangrar
(A gente combinamos de não Morrer)


 Os contos de Conceição Evaristo apresentam uma significativa galeria de mulheres — Ana Davenga, a mendiga Duzu-Querença, Natalina, Luamanda, Cida, a menina Zaíta ou serão todas a mesma mulher captada e recriada no caleidoscópio da literatura em vários instantâneos da vida? Apenas lendo para saber. E essa é umas das melhores leituras que fiz esse ano, certeza que será uma das suas também.

 Possuímos poucos contistas no nosso país, e não é algo que devemos nos orgulhar, muito pelo contrário. Contos como os de Conceição Evaristo, bem escritos, com panos de fundo em que a realidade salta a página e nos causa um tapa de realidade foram — e ainda são — o suprassumo do melhor da literatura nacional. Além de conceição temos Giovane Martins, que trarei na próxima resenha, aqui no Refúgio.

Créditos de imagem: Bahia Notícias


 Conceição ganhou um Jabuti em 2015 com OLHOS D'ÁGUA e seus livros foram traduzidos para mais de 25 idiomas.

 Em 2019 será homenageada na 61ª Edição do Prêmio Jabuti pelo conjunto de sua obra.


Se você gostou também vai gostar de:

0 comentários

Deixe sua opinião para nós do Refúgio Literário