Destaques

ALICE JÚNIOR, SOU TRANS E SOU RESISTÊNCIA. CONHEÇA O FILME NACIONAL PREMIADO INTERNACIONALMENTE

Por Salvattore Mairton •
quinta-feira, 24 de setembro de 2020



Título: Alice Júnior

Duração: 1h27min

Ano: 2020

Onde Assistir: Cinema, Now e YouTube (Aluguel por R$6,90)



Alice Júnior é uma youtuber trans cercada de liberdades e mimos. Depois de se mudar com o pai para uma pequena cidade onde a escola parece ter parado no tempo, a jovem precisa sobreviver ao ensino médio e ao preconceito para conquistar seu maior desejo: dar o primeiro beijo.


Olá queridos e queridas, dessa vez resolvi fugir um pouco das resenhas literárias e trazer uma dica de um filme maravilhoso que necessita ser visto por todos: Alice Júnior. 


Alice Júnior é um premiadissimo longa nacional que mostra a adolescência de uma garota trans na busca pelo seu primeiro beijo e conquista de seu espaço no mundo. A qualidade do filme já se inicia em sua premissa, afinal temos  uma trans retratada em seu convivio normal na sociedade, sem todo aquele esteriótipo que costumam fixar em personagens deste tipo. Alice, vivida por Anne Celestino, é apenas uma garota comum que quer beijar e mostrar ao mundo o seu poder de vencer as adversidades, mas claro, que em seu caminho teria que esbarrar com o preconceito e falta de informação sobre seu gênero. 


Alice, é uma adolescente influencer e que tem todos os desejos de sua idade: amores platônicos, dúvidas sexuais e diversões com amigos. Mas tudo se transforma, quando precisa mudar-se com seu pai para uma pequena cidade do Rio Grande do Sul, onde terá que se acostumar com uma nova escola que não a aceita como é, uma garota. A partir daí temos o desenrolar de novas amizades, conflitos e desejos, mas que com Alice seria vivido do seu jeito, com bastante intensidade. 



O filme encanta o espectador pelas cenas leves e divertidas, porém sem perder a mão de mostrar a vida de uma trans na sociedade preconceituosa que vivemos. O cineasta possuí uma grande delicadeza ao mostrar uma personagem trans retratada simplesmente com uma adolescente que ainda não encontrou seu lugar no mundo, mas que já sabe bem o quer: ser ela mesma. 


Destaque para a atriz principal que vive um personagem que passa tudo pelo que ela já passou ou ainda passa por se identificar como garota, quando muitos não a aceitam assim. A coragem de lutar contra o preconceito e a falta de conhecimento de muitos é a marca de Alice e isso é mostrado durante todo o filme. Outro grande destaque é a trilha sonora, que soa divertida e emocionante em alguns momentos do longa.

 

Alice Júnior está em destaque na mídia pelos seus vários prêmios conquistados pelo mundo em diversos festivais. Já sendo premiado nós EUA, Alemanha, Espanha, Portugal e outros mais. 


Hoje o filme se encontra em cartaz em diversos cinemas do Brasil, principalmente em Drive-ins, porém quem não deseja sair de casa pode ver o filme pelo Now, Vivo Play, Oi Play ou alugar no YouTube. No YouTube você pode alugar o filme pelo valor simbólico de R$6,90, simplesmente muito barato para o filme magnífico que vocês irão apreciar. 


Enfim, Alice Júnior tem que se apreciado e vivenciado em sua totalidade, para que todos possam apreciar a obra prima nacional que temos em cartaz. Simplesmente incrível. 



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RESISTÊNCIA, HUMANISMO, BELEZA E VERDADE CONHEÇA MULHERES SE SÃO PETERBURGO

Por Adriano Silva •
quarta-feira, 23 de setembro de 2020


Resenha: Mulheres de São Petersburgo

Autor: Álvaro Alves de Faria

Editora: Penalux

Compre aqui:Mulheres de São Petersburgo


 "Mulheres de São Petersburgo" é um livro de poesia do escritor Álvaro Alves de Azevedo que faz uma ode as mulheres, principalmente aquelas estrelas de Hollywood.

São diversas poesias com nome de mulheres e algumas chamam bastante a atenção:


“Das 34 vezes que dormiu comigo

Raquel arrependia-se de seu amor

e batia com as mãos nos espelhos

maldizendo seu destino

por ter me encontrado na vida”

 Raquel – pág 13

 


Algumas poesias o autor deixa sua marca de erotismo evidente e protagoniza seus melhores versos;


“Sua língua me percorre

e ao gozar me assassina

e com seu gole mais certeiro me engole a vida’

 Mulher de Paris – pág 19

 


Outro ponto que é bem interessante é que o autor nunca é vulgar em seus versos. A mulher, em suas linhas, é sempre dona de si, guerreiras, ilustres ou desconhecidas e mesmo quando o Eu Lírico, claramente é a persona do autor, este nunca é machista, como no verso a seguir que achei bem interessante:

 

“Carmem sentiu seu gozo

Como se fosse morrer.

Quando voltei a mim

Carmem tinha partido para Portugal

Deixando−me uma carta de afetos

Em cima do móvel da sala”

Carmem – pág 87


Mulheres de São Petersburgo é bem escrito, algumas poucas poesias não fazem sentido. Pode ser, de fato, um livro que não agradará a todos os públicos, ou até mesmo quem aprecia Poesia, já que é uma obra com traços autobiográficos, o que não é um ponto negativo, mas que limita bastante e pode causar desinteresse de leitores mais novos.

 

Como já citado, Álvaro é um exímio Poeta, consegue dosar bem os textos mais sexuais e se coloca sempre em uma situação de não um conquistador que leva várias mulheres à cama ( a maior parte das poesias tem esse envolvimento afetivo−sexual−carnal), mas de alguém que é encantado por elas e quase sempre deixado.

 

O livro tem 102 páginas. A capa consegue transmitir bem a ideia de mulheres de várias etnias, raças e credos com imagens de pontos famosos mundialmente conhecidos. A fonte é confortável par a leitura e não existe um erro de revisão em toda obra, o que é positivo e continua a nos surpreender na Penalux.

 

Leitura recomendada para amantes de boa Poesia e, principalmente, de mulheres.






Sinopse:

SINOPSE: Mulheres de São Petersburgo reflete a vivência (e multividência) do feminino plural ou o trailer hollyoodiano das musas do poeta – a experiência da palavra vivida, imaginada, transfigurada, sentida, idealizada, fruto do diálogo com a própria alma, a mulher interior. [...] o livro traduz a jornada do grande poeta e desvela o viajor na rota do sublime, exibindo a multiplicidade da experiência modelada sob os signos formais de angustiante beleza, extrema delicadeza (essa força superior e sutil da força) e refinado senso estético. [...] Solitário, puro e autêntico em sua totalidade criadora, Álvaro Alves de Faria, com Mulheres de São Petersburgo, reafirma aos leitores e às novas gerações, o valor inquebrantável da dedicação a poesia e a estatura superior atingida pela plenitude da linguagem em direção à novas estações do verbo. Resistência e humanismo, beleza e verdade, a lição que continua a pregar nas trincheiras líricas de sua revelação. [Luís Augusto Cassas]





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[FRANCA MENTE] OS DEVOLVIDOS

Por Francine S. C. Camargo •
domingo, 20 de setembro de 2020


           

No epílogo da tarde, quando a escuridão já começava a delinear o seu enredo, nós acordamos. Os olhos ardiam após dias ininterruptos em que as pálpebras se uniram, findada a despedida; tínhamos os lábios rachados e a boca seca, com sede voraz quase a ocultar os demais sentidos, de tão intensa; odores não sentíamos, orelhas se compungiam pelo não mais ouvido, enquanto algumas dezenas de pernas se arrastavam descoordenadas, com pouca pressa, detendo os passos em uma marcha rasteira, entretanto com um propósito claro: chegar ali, bem ali, a pouco mais de vinte passos, do portão negro do cemitério.


Era o portão principal de acesso à grande enfermaria dos mortos, por onde passavam todos os dias visitantes saudosos, trabalhadores, cúmplices e novos vizinhos. Em tempos atuais, ouvimos alguém comentar - como quem não faz questão de prestar atenção na conversa alheia, mas isso ocorre inevitavelmente – que a entrada já estaria fechada a essa hora do dia, antecipando o romper da noite, impedindo a chegada de qualquer um a perturbar o descanso já bastante descansado das almas que aqui jazem. Regra nenhuma havia, no entanto, a bloquear qualquer trânsito na direção oposta. Fato: não era o portão da entrada o que tanto objetivávamos, pois para nós, ele se intitulava unicamente como O Portão de Saída.


Vejam bem, não se tratava de uma horda de zumbis. Oh, por favor, não nos encarem como mortos-vivos, almas penadas, assombrações, espectros de indivíduos que não encontraram sua paz, que não terminaram seus deveres, que ainda têm algo pendente a resolver. Deveres até os temos, mas vocês não imaginam quão exaustivo foi todo o processo de seleção, a quantas reuniões nos submetemos, em quantas eleições votamos e a quantidade de avaliações teóricas e práticas que todos nós fizemos para estarmos aptos a sair dessa necrópole. Sem exceções, todos tiveram chances iguais, mas, ao final do processo, poucos foram os escolhidos.


De modo que somos em treze. Treze resgatados. Treze desistentes do plano A e retomados no Plano B. Porque o plano A era continuarmos mortos, uma vez que era esse o desígnio que nos foi imposto e o Plano B será uma repescagem de mais alguns anos vivendo fora daqui. Somos treze na arte de tentar contornar os planos alheios e garantir um pouco mais de vida livre. Ou como preferimos nos autointitular, os Treze Devolvidos.


Um de nós é o Ledo (o contente), outro é Bamba ( o sábio). Temos Dolores ( a sensível), Sintoni (o empático), Idea (a sonhadora), Tino (o inteligente), Belo (o formoso), Lhano (o leal), Serena (a paciente), Anima (a otimista) e Amor (o próprio, esse que a vocês conta a história, tal como aconteceu). Para completar o time, vieram de mãos dadas, após anos de relacionamento em épocas remotas, Benê (a bondosa) e Franco (nosso mais honesto morador).


Ao chegarmos ainda um pouco desengonçados ao átrio, todos paramos. Foi Anima, a otimista, quem empurrou o portão, enquanto escutamos todos em silêncio aquele rangido longo e cheio de emoção. Talvez nosso tempo passasse diferente, então não seria possível descrever nessa narração os minutos exatos que transcorreram enquanto reaprendíamos o inspire/expire e deixávamos que nossos sentidos recobrassem suas funções. Olhamos incansáveis uns aos outros, tentando adivinhar quem daria o primeiro passo, pois nossa estratégia estava desenhada apenas até ali, um pouco por falta de conhecimento do mundo externo, um pouco porque se houve algum aprendizado que pudemos obter por estarmos aqui foi: quer fazer Deus rir, faça planos...


– Vamos colocar nossos pés lá fora e então, escutar o que há para ser escutado, enxergar o que há para ser enxergado, tocar aquilo que se permite ser tocado, sentir o que houver para sentir, entender o que puder ser entendido.


Era Bamba que falava e, sem questionar, todos assentiram.


Então paramos, naquele ponto em que estávamos. E o mundo se descortinou, exibindo-se nu para todos nós que o assistíamos.


Vimos uma dor muito dolorida enternecendo e apequenando algumas pessoas. Ao redor dessas, muitos observavam, mas quase ninguém chorava junto. A uma pequena distância dessa dor, havia uma parede bloqueando a visão de novos rostos, mas pudemos ver dedos em riste: era para os seres doridos que apontavam, deles que debochavam, era a eles que julgavam, cuspindo o que chamavam de “nossa moral” e digitando ódio e escárnio pelas telas de seus aparelhos móveis.


– É ali que vou ficar – antecipou-se Sintoni, o empático. Junto a ele, caminhou  Dolores, a sensível.


Vimos rostos fechados, em melancolia. Vimos pessoas acreditando nas primeiras linhas que liam, sem crítica ou contestação. Vimos educadores se virando do avesso para tentar suprir as limitações das telas, ao mesmo tempo em que eram alvo de reclamações pelo que era possível fazer.


– Precisamos ficar por aqui mesmo – era a vez de Tino, o inteligente, acompanhado de Ledo.


Vimos solidão e medo, pessoas enclausuradas dentro de suas casas, fazendo de seus corpos o próprio casulo, existindo sem ser. Tinham pensamentos constantes do fim, de desistir, de desesperança e inutilidade.


Foi onde Anima, a otimista, e Idea, a sonhadora, permaneceram.


Vimos doença, vimos incerteza, vimos ausência de cura. Vimos boatos, vimos mentiras, vimos desinteresse em governar para os outros e interesse demais em governar para si mesmo.


É escusado dizer que nos despedimos de Franco, o honesto, e Serena, a paciente bem ali.


Vimos valores sendo quebrados, amizades desfeitas por palavras atravessadas, frases repetidas da boca pra fora, bandeiras sendo erguidas por 2 ou 3 segundos e esquecidas dentro de um caixa ao final do dia.


– Fico por aqui – impôs-se Lhano, o leal.


Vimos muitos comentários, opiniões, regras, conselhos sobre o hoje, sobre o ontem, sobre o dólar, sobre a mídia, sobre o corpo e sobre o batom, sobre a buzina, sobre o cachorro, sobre a pele, sobre o botox, sobre a roupa, sobre a cor, sobre o namoro, sobre o sexo, sobre o que pode, sobre o que não pode. Liberdade vimos pouca, muito pouca mesmo. Parecia bem difícil ser você mesmo nesses tempos. Vimos muita maldade sendo aplaudida, então Benê, a bondosa, ficou exatamente ali.


Belo, o formoso, caminhou incansável por todos os cantos, a fim de lembrar das belezas do mundo: as folhas cantantes, as cores exuberantes da natureza, céu e mar se beijando todos os dias sem que se percebam, ventos que sopram seus murmúrios de esperança, Sol e Lua com seus aspectos divinais e capazes de iluminar os caminhos mais escuros; água, terra, ar e fogo se unindo ao espírito.


Bamba, o sábio, contudo, continuou em frente ao portão.


– Meu tempo ainda há de vir. Vou retornar e me deitar enquanto espero. Há muito trabalho para todos vocês, até que eu possa me fazer presente.


Dizendo isso, retornou lentamente a sua sepultura, com o olhar ao céu em todo o trajeto, cantarolando algumas canções antigas, sem receio de desafinar.


Quanto a mim, Amor, designado em mim mesmo, entendi que, mais do que estar em todos os lugares, melhor faria se me dividisse em pedaços, em quantas míseras fatias fossem suficientes para repaginar cada vida em desalinho. E assim, dividido em infinitos pontos, me dispersei sem pressa de me reconstituir e o curioso é que só me multipliquei e cresci, tornando-me muitas formas completas de mim mesmo.


***


Desde então, o mundo foi sendo repovoado, aos poucos, por empatia, inteligência, alegria, otimismo, sonho, honestidade, paciência, lealdade, bondade, beleza, sensibilidade e amor, embora os Devolvidos saibam que anos passarão até atingirem o seu intuito. Mas não há urgência, já que foram escolhidos para um longo trabalho. Quando tudo estiver reconstruído, talvez muito mais pessoas carreguem um pouco de sabedoria e saibam que, ao final, tudo que nos restará é descansar.


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Amores líricos

Por Leandro Salgentelli •
sexta-feira, 11 de setembro de 2020


Há quem acredite no amor vitalício, aquele único amor capaz de durar por toda a vida. Tenho uma amiga que almeja esse deslumbramento. Mas, convenhamos, todos nós temos algum tipo de ideal que permanece ou amadurece com a passagem do tempo.

O curioso é como esse assunto não se esgota, porque a gente tenta, tenta, e tenda novamente, compreender esse sentimento. Lembro-me de conversar sobre a relação entre o amor e a paixão numa mesa de bar com alguns amigos tempos atrás. Eu havia dito que gostaria de sentir o céu e o inferno simultaneamente até o fim dos meus dias. Até que uma amiga me interrompeu alertando às placas de advertências, julgando minha ingenuidade — ah, coitado, ainda idealiza o amor. Disse ela que amor e paixão não caminham juntos, que se apaixonar é diferente de amar, que o frio na barriga passa e o brilho nos olhos também. Eu não prolonguei o assunto porque qualquer tentativa seria infrutífera.

Eu reconheço que há quem se acomoda naquilo que chamamos de amor. Sabem que acabou, mas preferem permanecer ali, naquela morada onde o corpo já se habituou. É como se deixassem a tevê ligada, dia após dia, e aquele chiado, aquela voz entoando o ambiente no modo plano de fundo impedisse a introspecção. Há quem evita o silêncio a todo afinco. Há vários fatores, cada um sabe onde dói mais, não vou entrar no mérito.

No entanto, eu não sou desses que acredita em contos de fadas, como também não acredito no único amor vitalício. É possível amar várias vezes numa mesma vida e todos os sentimentos permanecerem até o fim dos nossos dias — não permanecer é que seria estranho. É dessa forma que nossa biografia ganha vida, que a gente se torna interessante. Porque é de experiência em experiência, acertos e desacertos, que a gente amadurece a ponto de toda aquela frustração se transformar numa bela gargalhada logo adiante.

Porque se relacionar, no meu conceito mais puro e sincero, passa pela compreensão de que o amor e a paixão devem-se andar juntos, sim. Se a paixão não for um integrante nessa história, atente-se, alguma coisa está fora do eixo. Claro que há brigas, desentendimentos, discordâncias e mágoas, tudo isso fazem parte desse pacote. É um assunto delicado, porque as decepções amorosas nos levam a perder o lirismo, a poesia da coisa, e é aí que mora o perigo.

O frio na barriga passa, eu sei que passa, mas não é do frio na barriga, aquela paixão avassaladora em que o coração acelera quando vê o afortunado, não é a isso que me refiro. Refiro-me em achar graça no lirismo.

Você não só ama o João porque ele é bom de cama ou porque faz seu prato predileto. Você ama pelo que ele provoca, pelo que ele mais irrita. Você pode ficar doida da vida porque ele deixa a toalha jogada na cama, mas o bom humor dele a deixa leve. Isso tem nome: ponderação. Vocês se entendem pelo olhar. Vocês podem estar na mesma casa no domingo à tarde, quando o silêncio geralmente se faz presente, mas vocês se sentem inteiros. Ele respeita o seu silêncio e você o dele.

Amar é chegar ao nível de compreensão sobre o que o outro mais lhe incômoda e rir disso. Amar é desequilíbrio também. A paixão aparece nesses pequenos detalhes que passam despercebidos pela rotina exaustiva diária. São as coisas miúdas, observadas em silêncio, quando ninguém está vendo. “Amor, desculpe por ontem. Quando chegar a gente conversa. Eu te amo”.

Paixão é também aquele riso no canto dos lábios, que já se sabia que a reconciliação aconteceria à noite.
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[RESENHA] À PRIMEIRA VISTA - DAVID LEVITHAN E NINA LACOUR

Por Francine S. C. Camargo •
terça-feira, 1 de setembro de 2020

 


" – Tem certeza? - pergunto.

Ela me olha nos olhos e diz:

– Nunca.”


Quero falar inicialmente sobre um autor que me faz delirar, em tudo que escreve. Não sei bem explicar porque, mas apesar de sua escrita ser meio destinada ao público mais juvenil, essa mocinha aqui de 40 anos se encanta por cada palavra do escritor norte-americano David Levithan, pois esse cara sabe cravar estacas em corações iludidos, ao mesmo tempo que acaricia com jasmins nossa pele ardendo em dor. Também acalma, também motiva e também faz erguer sutilmente, depois de nos derrubar ao chão com suas verdades escancaradas.


O autor tem no currículo as aclamadas obras Will e Will (livro-queridinho, escrito junto com o também brilhante e amado John Green), Garoto encontra garoto, Dois garotos se beijando, a trilogia de Todo dia, entre outros,  e esse que acabei de ler: À primeira vista, escrito em parceria com Nina Lacour.


O resumo da capa reproduzo aqui:

 

“Esqueça amor à primeira vista. Esta é uma história de amizade à primeira vista...ou quase. Afinal, quem nos conhece de verdade? O melhor amigo? A cara-metade? Ou um estranho na noite?”

 

Bem diretamente descreverei o enredo, já que me interessa muito mais falar do modo como as páginas me tocaram.


A história se passa em São Francisco, no cenário da semana do Orgulho Gay. Mark é apaixonado pelo melhor amigo Ryan, com quem tem relações íntimas e instáveis, já que desprovidas de compromisso, uma vez que o amigo não se sente a vontade em assumir-se em sua plenitude e não se sabe, ao certo, o quanto esse sentimento pode ser correspondido. Kate, por sua vez, é uma artista jovem (pintora) e promissora, apaixonada pela idéia de uma garota à distância (Violet, prima de sua melhor amiga, que chegará à cidade para morar) e enfrenta seus dilemas sobre o futuro, seus medos e a falta de crença em seu próprio talento, acabando por literalmente fugir sempre que se apavora.


Kate e Mark são meros conhecidos na escola, mas se encontram em uma festa no início da Semana do Orgulho Gay e, por conta de acontecimentos inusitados na noite de ambos, acabam por doar-se um ao outro subitamente, encarando juntos, a partir disso, suas dores e sendo acolhimento, força e entendimento em todos os momentos daí para frente.


"Você pode ficar nu com uma pessoa e continuar irreconhecível. Pode ser o segredo de alguém sem nunca saber qual é o segredo inteiro."


Quais são os atrativos desse livro?


Primeiro, a linguagem característica do autor: direta e contundente. Fácil de digerir, os olhos poderiam sobrevoar as páginas pela facilidade de entendimento. Mas não é bem assim, na prática. A gente trava lendo, há passagens que você quer ler e ler de maneira demorada, unicamente porque está sentindo o que lê.


Segundo, os personagens. Como disse anteriormente, há passagens que você quer ler pausando, relendo, sentindo. Porque você se torna capaz de sentir o que Kate e Mark estão sentindo e é incrível se identificar tão fielmente com os dois, tanto com o estereótipo do “cara apaixonado não correspondido” quanto da “menina apaixonada e perdida”. Entendo que isso se deve ao fato – e é aí que peço que se apague essa crença de superficialidade na literatura para jovens – de que a profundidade da abordagem mostra o simples, porém muitas vezes difícil de enxergar: estamos todos procurando e nos tornando algo, estamos todos fugindo e, em seguida, questionando se realmente achamos antes de iniciar uma nova busca.


Terceiro, não se trata de uma história que aborde o tema da homossexualidade em si, pois ele, o autor, está milhares de anos-luz adiantado nesse tema; é sobre relacionamentos, o entendimento do amor, o descobrir como doar-se a alguém, o saber-se amar e tentar se colocar no mundo, descobrir o que fazer. Amo e o que faço agora? É mais ou menos isso.


Recomendo demais esse livro para se entregar por horas ou poucos dias e, acreditem, vocês vão querer tomar nota de várias passagens do livro, cada uma alterando um pouco a respiração ou causando lágrimas nos olhos.

 

Mas não há ilusões aqui. Hoje é finalmente hoje. Nós não somos mais o que éramos. Somos agora o que íamos ser.”

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[FRANCA MENTE] ISOLAMENTO

Por Francine S. C. Camargo •
quinta-feira, 27 de agosto de 2020

 


Idos de março: fiquem em casa!


Mas o mundo não pára, não pode parar; o que parou foi tudo ao redor, não a gente (ou será que foi o automóvel?). Vamos esperar, proteger nossos idosos, nossas crianças, isolar nossas angústias e medos para que ninguém os veja, só os ouça em redes sociais e conversas intermináveis no whatsapp.


Pára a escola, pára o trabalho, vida dá uma paradinha discreta, já que não adianta seguir a esmo. Mas o que fazer para ocupar a mente?


Home learning, home schooling, home food, home exercises, home office, home everything, menos home air, que esgotou, faltou um pouquinho de oxigênio nesse ar daqui de dentro. Sai no quintal, no alpendre, na sacada, na janela, tranca no banheiro, que ali há de encontrar um pouco de ar, respira, respira, respira, conta até cinco, dez, trezentos e cinquenta e dois e já chegamos no novecentos e nada foi resolvido!


Acorda, conecta o computador, ouve as aulas dos filhos, ensina, chama a atenção porque estão todos dispersos, volta pra aula, menino! Já tá na hora do lanche? Como assim, acabou de tomar café e ainda nem limpei a cozinha, cama ainda por arrumar! Assistindo às aulas de pijama?! Não tem uma fruta nessa fruteira, acabaram as verduras, o sabão em pó, o gás, o que fazer de janta, meu deus, já está na hora do jantar e ainda nem comecei a pensar no que comer! iFood. Mas pedir comida interfere no isolamento?


Senta em frente ao desktop, laptop, qualquer dipositivo que as crianças não estejam usando para fazer as aulas online e tenta trabalhar, fazer uma reunião, videochamada, corta a conexão, internet é rara, todo mundo compartilhando da mesma rede, haja megabyte, largura de banda. Isso se as maritacas não comeram o fio da internet por fibra! E reunião atrás de reunião. Do outro lado da tela, não sabem que é preciso parar para cozinhar, lavar louça, roupa, limpar o banheiro, colocar o lixo para fora,  ensinar a conta de matemática, ensinar a postar a tarefa, ensinar a não rasgar a folha de papel sulfite com tanto rascunho pela casa, dar de comer, dar de comer, dar de comer o tempo todo e tudo isso em 24 horas?


Alguém precisa ir ao mercado, a comida está acabando e ninguém aqui é o maluco dos estoques. Tem a farmácia também, para comprar álcool gel, dipirona 1 grama (haja enxaqueca!), antialérgico, antiácido, anti estresse. Anticorpos tem? - pergunto no balcão.


Começa a assistir a uma série, mas não sai do primeiro episódio, pois há tempo demais e ele voa. Aproveita para separar uns livros para ler nas horas vagas, o primeiro está na página 5 (prefácio), os demais, empilhados na escrivaninha, aguardando pela próxima horda de pó a ocupar suas capas, lombadas e periferias, enquanto as palavras de suas medulas continuam caladas.


Fica em casa simplesmente. Deita e dorme. Libido não há, nem sabe mais do que se trata. Chora sem motivo ou haveria motivos aos montes ainda não reconhecidos?


Medo, medo, dúvida. Espirra. Tosse. Será? Acorda com diarréia. Será? Infecção ou a comida oriental que demorou para chegar na noite passada? Toma mais um café, o décimo do dia, pelo costume, pela ansiedade, pelo cheiro que infesta a cozinha...mas e agora que não sente mais os aromas? Melhor perguntar para o Dr. Google...


Mais solidão do que nunca. Mais opinião do que nunca, é o cenário atual. Pode postar o que sente, pode comentar o que acha? Mas se não falar nada, a falta de posicionamento será a sua condenação. Boca fechada ainda é sinônimo de não entrar mosquito e decerto nem cospe vírus.


Enquanto a gente vive esses dias da Marmota, uns tantos estão tentando encontrar sentido, rima, emoção nas horas que passam. Mas muitos estão tristes, outros estão doentes, outros sozinhos, uns trabalhando o dobro do normal, outros só buscando sobreviver bem mais do que nos dias usuais, e muitos tantos estão morrendo, enquanto a gente se surpreende ao espelho analisando rugas, olheiras e fios de cabelo mudando de cor. A vida de muitos pode ser mais cinza do que as raízes de nossas madeixas.


Mas sempre é possível mudar.


Ainda com a loucura dos dias, dá para ouvir, chorar junto, ajudar, motivar, acolher, doar, segurar a mão de alguém, mesmo que seja virtualmente. Não houve ainda nenhuma comprovação científica de que compaixão e empatia aumentem o risco de contaminação, e vamos aos fatos: todo cuidado e higiene é importante, não só nos tempos atuais, disso todos sabem. Que tal um pouquinho de álcool gel e lavagem na alma, para minimizar as dores desse isolamento social?

 


 

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A MAGIA DA LEITURA AOS OLHOS DE UMA PORTUGUESA APAIXONADA PELA LITERATURA BRASILEIRA

Por Salvattore Mairton •
quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Titulo: Moça Vintage
Autora: Rosa Carvalho
Editora: Luva 
Onde Comprar: Livraria Da Editora

Em meio a tantas leituras e enredos quase que iguais que vem sendo publicado, resolvi hoje trazer uma resenha de uma obra diferente. Moça Vintage da portuguesa Rosa Carvalho, nada mais é que a exposição dos pensamentos de uma apaixonada por livros. 

Ficou difícil, para mim, definir em qual gênero a obra melhor se encaixa. No início da leitura o leitor pensará que são crônicas, porém eu definiria mais como um romance. No livro a autora traz enredos reais e outras nem tanto, da sua própria história. Diferente de muitas obras, Moça Vintage é praticamente em sua totalidade escrita através de diálogos, onde neles Rosa Carvalho conversa com outro personagem que em muitos trechos se confunde com seu próprio eu. 

Nesses diálogos são retratados os mais variados sentimentos e entre cada conversa uma história surge, um conselho é dado ou simplesmente a autora fala de sua vida. Não temos aqui uma obra autobiografica, longe disso, o que temos aqui é um livro que se assemelha bastante a forma de escrita de Camões, onde ele passava todos os seus sentimentos para a obra de uma forma que não transparecesse ser ele próprio o protagonista. Rosa busca de uma forma clara e com uma escrita impecável, trazer a sua vida para as páginas de um livro, porém sem cansar o leitor ou deixar claro se o causo é real ou apenas fruto de sua imaginação. 

Li o livro em formato e-book e a experiência foi bastante prazerosa. A Luva Editora tem uma diagramação bastante peculiar em suas publicações para a Amazon, o que torna a leitura agradável e nenhum pouco cansativa. 

Em cada capítulo o leitor se depara com um acontecimento que seja ele real ou não, fará quem lê a obra repassar sua própria vida e definir alguns pontos que devem ser mudados em sua caminhada. Rosa Carvalho, uma portuguesa que ama a Literatura Brasileira, traz em Moça Vintage o retrato da sua própria personalidade. Leia e deguste cada capítulo, cada linha e cada palavra dessa autora que tem muito a ensinar. 


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