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Expectativa e exigências

Por Leandro Salgentelli •
segunda-feira, 12 de outubro de 2020


Eu estava conversando com o gerente do banco quando fui surpreendido pelos gatilhos do inconsciente. Ele me tratava com uma gentileza descomunal, falava pausadamente olhando no fundo dos meus olhos, chegou algumas vezes a tocar minha mão a fim de confirmar se estava sendo compreendido. Olhei para os outros gerentes para ver se tratavam os demais da mesma maneira — vai ver era um novo protocolo da agência para que ao final do atendimento avaliássemos com nota mil. Mas não: os demais não fazia isso. Sua gentileza era tão provocativa que cheguei a cogitar que estava flertando comigo. Ora, ora, não pode ser.

A gente se assusta com gentileza demasiada porque nesse mundo de arranha-céus estão todos preocupados com o próprio umbigo e, também, porque a gente sabe que não é nada fácil lidar com pessoas, o entre e sai nas agências tornam os diálogos automáticos e apressados.

No entanto, ainda fazendo as mudanças cadastrais, falei comigo mesmo: “como sua expectativa anda alta demais, né, Leandro?”. O gerente não estava flertando comigo. Acontece que muitas vezes a gente confunde educação com expectativa, educação com exigência ou até mesmo educação com carência. Basta que percebamos nosso emocional para que identifiquemos em que ponto nós estamos.

Existem impulsos internos que nos levam a determinados comportamentos. É muito comum isso acontecer. Às vezes você vai exigir do seu parceiro mais presença, mais atenção e ficar irritada porque na verdade ele pode não corresponder a uma expectativa que era somente sua. Às vezes você vai confundir gentileza como se o ato fosse um impulso erótico, mas na verdade, é carência. Que atenção é essa que te falta? Que vazio é esse que não se preenche?

É claro que às vezes o rapaz vai flertar com você, e é claro que você vai saber quando isso acontecer. Mas quando tiver dúvida, pergunte a si mesma: será? Muita das vezes a reação que você tem sobre o comportamento do outro pode estar muito ligado ao que se processa na sua cachola. Tem muito mais a ver sobre o que se passa com a gente do que sobre o outro. 

Da série das coisas que a gente aprende com a vida, é bom ficar atento.

Mas daí eu defendo outro ponto também: que é da-mesma-série-das-coisas-que-a-gente-aprende-com-a-vida: após muito nos relacionarmos, nossos níveis de exigências sobre o outro aumentam também. Mas me refiro às características que a gente não tolera mais. Se o cara é invasivo, exige explicações dos seus silêncios, hum, entendo se você não responder mais as mensagens dele. Você já sabe onde isso vai chegar.

Meu nível de exigências tem aumentado muito, e é claro que essas exigências acompanham nosso amadurecimento emocional que vai, aos poucos, tentando organizar a biografia desajeitada.

Nos primeiros diálogos com alguém nesses aplicativos de relacionamentos, descubro facilmente onde posso me enfiar. Eu que rejeito a tudo aquilo que não for simples, a uma boa conversa, me vejo afastando das pessoas por razões tão pequenas. Exigências demais? Ou estou procurando a autoafirmação? Sinais da independência, que penumbra sobre o famoso "aí de mim"?

Sei que tudo isso seria assunto para outro texto, mas ele se encaixa perfeitamente nessa escada que a gente, curiosamente, vai subindo na vida, ou personificando, o que acredito que seja.

Percebo que cheguei a uma etapa onde se instalou o exprobo. Uma boa conversa tem valido mais que sexo. Eu não tenho mais sede por noitadas. Meu desinteresse tem acompanhado meu estado físico e emocional, porque me assusta a ideia do amor longevo e me arrepia a ideia de amores que entram e saem da minha vida do dia para a noite.

Enfim, era para sair um texto banal e acabou se transformando nessa filosofia caótica, que é a vida, essas exigências que impomos dia a dia.

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