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Amores líricos

Por Leandro Salgentelli •
sexta-feira, 11 de setembro de 2020


Há quem acredite no amor vitalício, aquele único amor capaz de durar por toda a vida. Tenho uma amiga que almeja esse deslumbramento. Mas, convenhamos, todos nós temos algum tipo de ideal que permanece ou amadurece com a passagem do tempo.

O curioso é como esse assunto não se esgota, porque a gente tenta, tenta, e tenda novamente, compreender esse sentimento. Lembro-me de conversar sobre a relação entre o amor e a paixão numa mesa de bar com alguns amigos tempos atrás. Eu havia dito que gostaria de sentir o céu e o inferno simultaneamente até o fim dos meus dias. Até que uma amiga me interrompeu alertando às placas de advertências, julgando minha ingenuidade — ah, coitado, ainda idealiza o amor. Disse ela que amor e paixão não caminham juntos, que se apaixonar é diferente de amar, que o frio na barriga passa e o brilho nos olhos também. Eu não prolonguei o assunto porque qualquer tentativa seria infrutífera.

Eu reconheço que há quem se acomoda naquilo que chamamos de amor. Sabem que acabou, mas preferem permanecer ali, naquela morada onde o corpo já se habituou. É como se deixassem a tevê ligada, dia após dia, e aquele chiado, aquela voz entoando o ambiente no modo plano de fundo impedisse a introspecção. Há quem evita o silêncio a todo afinco. Há vários fatores, cada um sabe onde dói mais, não vou entrar no mérito.

No entanto, eu não sou desses que acredita em contos de fadas, como também não acredito no único amor vitalício. É possível amar várias vezes numa mesma vida e todos os sentimentos permanecerem até o fim dos nossos dias — não permanecer é que seria estranho. É dessa forma que nossa biografia ganha vida, que a gente se torna interessante. Porque é de experiência em experiência, acertos e desacertos, que a gente amadurece a ponto de toda aquela frustração se transformar numa bela gargalhada logo adiante.

Porque se relacionar, no meu conceito mais puro e sincero, passa pela compreensão de que o amor e a paixão devem-se andar juntos, sim. Se a paixão não for um integrante nessa história, atente-se, alguma coisa está fora do eixo. Claro que há brigas, desentendimentos, discordâncias e mágoas, tudo isso fazem parte desse pacote. É um assunto delicado, porque as decepções amorosas nos levam a perder o lirismo, a poesia da coisa, e é aí que mora o perigo.

O frio na barriga passa, eu sei que passa, mas não é do frio na barriga, aquela paixão avassaladora em que o coração acelera quando vê o afortunado, não é a isso que me refiro. Refiro-me em achar graça no lirismo.

Você não só ama o João porque ele é bom de cama ou porque faz seu prato predileto. Você ama pelo que ele provoca, pelo que ele mais irrita. Você pode ficar doida da vida porque ele deixa a toalha jogada na cama, mas o bom humor dele a deixa leve. Isso tem nome: ponderação. Vocês se entendem pelo olhar. Vocês podem estar na mesma casa no domingo à tarde, quando o silêncio geralmente se faz presente, mas vocês se sentem inteiros. Ele respeita o seu silêncio e você o dele.

Amar é chegar ao nível de compreensão sobre o que o outro mais lhe incômoda e rir disso. Amar é desequilíbrio também. A paixão aparece nesses pequenos detalhes que passam despercebidos pela rotina exaustiva diária. São as coisas miúdas, observadas em silêncio, quando ninguém está vendo. “Amor, desculpe por ontem. Quando chegar a gente conversa. Eu te amo”.

Paixão é também aquele riso no canto dos lábios, que já se sabia que a reconciliação aconteceria à noite.

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