[FRANCA MENTE] MÃE, EU CRESCI

Por: Francine Camargo - 21:35



“Mamãe me disse que no dia que eu nasci Dona Cegonha que me trouxe de encomenda...”

Não sei se era zombaria ou se a intenção era fazer crer que a gente vem ao mundo amarrada ao bico de uma ave, o fato é que independente do meio e da época de chegada, a gente muda a vida delas, sem sequer pedir licença. E isso é para sempre. A gente chega solicitando presença e atenção contínuas, sem aviso prévio, e nada nunca mais será igual.

“Eu sei o que você sofreu por mim, sem reclamar.”

Ela reclamava sim e várias vezes ao dia, dependendo do quanto eu a contrariasse. Só que tantas outras, sofria calada e não sei por qual motivo. Poucos sabem que era ali trancada no banheiro por alguns minutos, que ela chorava suas perdas, tudo de que abdicou, pelos seus sonhos adiados ou por aqueles de que desistiu. Ela, com certeza, relembrava as noites não dormidas, o cansaço perene, os olhos miúdos e violáceos ao espelho, quase definindo uma nova face. Eram os “ses” que lhe caiam em forma de saudade e os “talvez” que banhavam seu rosto de culpa.

“Mamãe, mamãe, não chore, a vida é assim mesmo.”

Não li suas lágrimas, nem nunca entendi a dor que ela carregava. Não cogitava que a vida, essa montanha russa que antes era sinônimo de diversão, pudesse por si só ser tão repleta de angústias e que nem sempre é preciso um culpado que nos faça sofrer; em grande parte das vezes é de dentro que a dor surge.

“Mãe, nós queremos mais.”

E quem perguntou a ela o que queria. Perguntemos hoje, se houver tempo: e você, o que quer? E se a hora já for passada, por que não perguntar, então: se ela estivesse aqui querendo o que eu quero, o que faria?

“Minha mãe sempre diz: não há dor que dure para sempre.”

Isso não se guarda. A gente tropeça, sente-se no vale mais profundo que já foi habitado e, mesmo assim, aqueles dias difíceis parecem não ter fim. Um dia amanhece com a mesma brisa do ontem, com as mesmas cores, com os mesmos aromas de outrora, mas a primavera nasce em nós e algo se cola, se refaz, renasce. E ela realmente tinha razão.

“Mãe, será que devo erguer o muro?”

Ela sabe de tudo e tem o maior amor do mundo, mas não poderia me resgatar de todas as bombas que já explodiram ou que ainda jogarão em meu jardim. Não poderia prevenir as discussões e afastamentos que terei por pensar ou ser diferente dos outros, não me impediria de me apaixonar e ter o coração dilacerado, também não saberia tolher minha missão de erigir muros ao redor de mim mesma, eu que me visto de medo, sem que muitas vezes a deixe perceber.

“Seu coração parece que não tem mais fim.”

E em mim ela ficará quando seu corpo se extinguir, e parte do meu ela levará. Porque eu cresci, mãe, e trouxe tudo de você para mim, tanto o seu medo quanto o seu enfrentamento, então sigo com essa inquietação onde estiver, mas vou para frente, sempre em frente, tecida de sacrifício e amor.

Eu cresci. Também sou mãe aqui dentro, Mãe, e sou inteira feita de amor.




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