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[CRÔNICA] A VIDA EM UMA BOLINHA DE CRISTAL

Por Leandro Salgentelli •
sábado, 11 de maio de 2019

EU ESTAVA NO CONSULTÓRIO médico aguardando ser atendido e ali, sentado, alcancei uma revista e comecei a virar as páginas enquanto mergulhava nos meus pensamentos. Minutos depois, observei uma mulher a minha frente com uma criança, ela também estava preocupada com algo, perdida em seus pensamentos. A garotinha não parava sentada: pegava uma revista, sentava no chão, brincava com sua boneca; eu já havia voltado em mim quando observei a pequenina intrigada com algo que estava na estante, então ela se levantou e alcançou a bolinha de cristal vetor — aquelas miniaturas que dentro tem uma Torre Eiffel com neve. Ela balançava o objeto e a neve se espalhava dentro do cristal, aos poucos, aqueles blocos brancos iam ganhando forma no fundo do brinquedo e o cristalino ganhava vida novamente.

 Então fiquei pensando: a vida não é isso?

 Durante todo o nosso percurso, desde a infância até chegarmos aqui onde estamos hoje, passamos por tantas situações: são os medos que nos perseguem, os choros inconfessos, o sofrimento, a saudade de algo que nos aconteceu, são tantos os sentimentos que nos tomam que fica difícil acreditar em dias melhores. A impressão que dá é a vida nos dando uma chacoalhada.

 Quem perdeu um amor significativo talvez esteja passando por essas nuances. Quem perdeu o emprego, quem perdeu uma pessoa querida, quem está passando por dificuldades no casamento, no trabalho, com a família, enfim, tudo é justificável.

 Às vezes a gente passa por situações tão complicadas que parecem não ter soluções. Então a gente entra na bolinha de cristal, e fica lá, escondido, a espera de a tempestade passar. E muitas vezes custam a passar a ponto de questionarmos: será que há saída?

 A nossa percepção do mundo é muito limitada, porque temos dificuldade em olhar para os nossos problemas a milhas de distância. Observe: aquele problema que você tinha há dois anos tem a mesma proporção que hoje?

 O tempo, a sabedoria, aos poucos, molda o nosso comportamento e naturalmente vai acalmando a névoa, as estações vão passando e aquele frio que sentimos durante um longo período é amenizado com a chegada da primavera, do verão, do sol. Com o tempo, a poeira desaparece e o nosso olhar volta a ficar renovado novamente.

 Como cheguei a essa conclusão? Olhando a vida dentro de uma bolinha de cristal.


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