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QUANDO UM TEXTO PEGA PELAS MÃOS

Por Salvattore Mairton •
domingo, 19 de fevereiro de 2017

TODA VEZ QUE LEIO um texto, um livro, um poema, eu fico observando o lugar em que estou. Geralmente, o ambiente contribuí para o que vou sentir no desenrolar da história, assim como também o que vou sentir será influenciado pelo meu dia. Se meu dia for turbulento, vou ler o texto correndo e não vou me atentar aos pequenos detalhes, se meu dia foi calmo, lerei prestando mais atenção; se estiver com a cabeça no mundo da lua, vou ler, reler e não entenderei nada. Mas se estou agitado e o ambiente está calmo, então me organizo para ficar calmo.

 Além do meu estado de espírito e o ambiente, o estilo do autor também me influenciará. A ler Luís Fernando Veríssimo, eu fico humorado. A ler Clarice Lispector, todas as coisas passam a ter existência. A ler Lionel Shriver ou Arnaldo Jabor, meu senso crítico fica cáustico. A ler Carlos Drummond de Andrade e Martha Medeiros, eu sinto a vida mais doce. 

 Fico pensando: o que te causo enquanto lê esse texto? 

 Já quando escrevo um texto procuro o ambiente mais silencioso possível. Agora, por exemplo, são 01:42 da manhã. Todos estão dormindo. Fico pensando, também, onde você vai estar quando ler essa pequena crônica.

 Como é domingo, talvez você esteja tomando café da manhã, comendo um pão quentinho com leite e chocolate. Talvez você esteja de férias e mesmo do outro lado do mundo se sinta tão perto. Talvez você esteja deitado visualizando os e-mails e, de repente, chega este com um título tão simplório, mas que o instigou a ler até aqui.

 Às vezes os textos chegam como luva, naquele exato momento em que você está refletindo sobre o que fará na data de aniversário, o que vai vestir amanhã cedo quando o relógio despertar. Às vezes eles chegam quando uma lágrima escorre pelo rosto, quando sente que está abandonada e que o mundo fechou às portas; e então, aquele texto te pega pela mão, e diz que não está sozinha. Em algumas pessoas, aquele texto pode servir como consolo, poder servir como aquele abraço tão esperado. 

 Quando um texto nos pega pela mão, pode ser que estejamos num ambiente tumultuado, pode ser que estejamos num universo à parte, e ele vai nos levar para um lugar em que o mau humor não tem vez. 

 Pode ser que aquele comentário maldoso da sua mãe tenha contribuído para o seu mal-estar. Pode ser que aquele fora do carinha que estava gostando tenha a deixado angustiada. Pode ser que o vazio que sente tenha o deixado cabisbaixo. Mas quando a arte nos pega pela mão, e a sentimos, e nos emocionamos, e a contemplamos, quando há uma conexão, mesmo que seja um lampejo, sentimos como se estivéssemos em casa. Resta saber se o alcancei e o levei pra dentro.

 Mas se chegou até aqui, acho que alcancei sua mão.


Por: Leandro Salgentelli

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