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[ENTRE CONTOS E CLÁSSICOS] AS ONDAS - VIRGÍNIA WOOLF

Por Francine S. C. Camargo •
sábado, 23 de maio de 2020


Peço licença hoje para apresentar uma resenha totalmente pessoal. Não vou me desculpar pela parcialidade nas opiniões e comentários que dedico à obra, pois estamos falando de Virginia Woolf, que por si só dispensa apresentações. Mesmo assim, vou apresentá-la com meus olhos. ESCRITORA em letras maiúsculas, pois o que ela desenvolveu em sua arte trouxe sensibilidade, intelectualidade e beleza ímpares no início do século XX, ecoando nos admiradores modernistas dos romances psicológicos que a sucederam e foram inspirados pelo seu gênero, tal como a diva Clarice Lispector.

A escrita como um fluxo de consciência é a marca de também outras belíssimas obras (A viagem, Orlando, Ao farol, Mrs. Dalloway, Flush, Entre os atos), com tramas emocionais dos personagens, lirismo e poesia emanando de cada página. Logo, sua leitura pede olhos pacientes e devotos, leitores que se entregam e sentem cada palavra e aceitam se aventurar em narrativas experimentais e com poucos ápices e acontecimentos.

Voltando à leitura de uma das minhas obras favoritas da vida, digo que As ondas é um livro tão tocante, por me basear na imensidão de toques na alma que ele é capaz de fornecer.

A história nada tem de complexa: um grupo de seis amigos se une para tecer considerações a respeito de suas próprias reflexões, mais como um solilóquio do que como uma conversa de fato entre velhos amigos. Virginia nos aproxima do inconsciente de cada um deles quando nos permite participar dos monólogos de Bernard, Louis, Neville, Rhoda, Susan e Jinny, cada um com sua particularidade, além de Percival, personagem extra mais citado do que vivido. Os pensamentos de cada um se revezam e se transpõem, como em ondas, intercalados por cenas do mar narradas em terceira pessoa (ah, maravilhoso, maravilhoso!) ao longo de um dia, em uma atmosfera de poesia em todo o livro.

Para não me prender demais aos elogios, seguem alguns trechos que tornarão mais compreensível toda essa admiração:

“Ele se afastará da minha vida, esquecido, quase inteiramente ignorante do que foi para mim. E, por incrível que pareça, entrarei em outras vidas; talvez não seja mais que uma escapada, um simples prelúdio. […] continuarei a deslizar para trás das cortinas, para o seio da intimidade, em busca de palavras sussurradas a sós.”

“No correr de minha vida farei o gigantesco amálgama das discrepâncias tão cruelmente óbvias em mim. Conseguirei isso à força de tanto sofrer. Vou bater. Vou entrar.”

“Por isso odeio espelhos que me revelam meu verdadeiro rosto. Sozinha, muitas vezes mergulho no nada. Preciso firmar meu pé fortemente, se não, caio do limite do mundo para dentro do nada.”

“De que adianta elaborar penosamente essas frases coerentes, quando precisamos não de uma sequência coerente, mas de um latido, um gemido?”

"Agora vou embrulhar minha angústia dentro do meu lenço. Vou amassá-la numa bola apertada."

"As histórias que perseguem as pessoas até seus quartos de dormir são difíceis."

Mais do que um romance, um jogo poético como a própria autora o descreveu,  As ondas é um convite para uma viagem efêmera nesse tempo que flui incerto e passa por nós, sem nunca nos ter pertencido.



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