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[CRÔNICA] QUEM COM FERRO FERE

Por Leandro Salgentelli •
terça-feira, 10 de março de 2020
Reprodução: Instagram (@brunacastrocriminal)

É CURIOSO A HETEROGENEIDADE QUE habita a internet. O como as verdades, as meias verdades, as mentiras e todas suas vertentes se propagam numa velocidade que beira o absurdo. O mais curioso é o como a gente absorve a cada questão em pauta. O assunto do dia é sobre a reportagem de Drauzio Varella, que foi ao ar no último final de semana (1/3). A entrevista é com mulheres trans que vivem na prisão, a cada relato suspirava fundo, porque não é uma realidade que eu vivo, que você vive. Uma reportagem comovente, diria.

 No entanto, Varella teve que divulgar uma nota após vários advogados criminais virem a público para informar os desinformados que Drauzio abraçou uma mulher trans que estuprou e matou uma criança. É sempre bom ouvir os dois lados, como ouvir a mãe após 10 anos da morte de seu filho. O que ela tem a dizer?

 Eu acredito que as pessoas se transformam com o tempo. E se transformam para melhor. Acredito nisso e ponto. Entretanto, começo a me preocupar quando deixamos nossas decisões serem norteadas pelos nossos prejulgamentos e preconceitos.

 O que me deixou intrigado é essa sangria por punição ao ler os comentários nas redes sociais. Foi justamente ali que pude perceber que a gente não se importa com o crime que as pessoas cometeram, a gente não se importa com a família da criança que foi assassinada, a gente só se importa em punir. Porque é esse o desejo que se sente quando ouvimos algo semelhante: punição e exclusão.

 Se algo valer a essa altura das opiniões, não importa a atrocidade que alguém tenha feito, há sempre algo que a faz ter empatia, a algo que a traz para humanidade. Veja por você mesmo, homem honesto, integro, mas você não é só bom. Você é ruim também. Há dentro de todos nós o lado selvagem, animalesco, primitivo que às vezes deixamos vir à tona, em comentários, em linchamentos públicos, em maldadezinhas corriqueiras.

 Todas as vezes que a gente julga sem conhecer a gente se fecha para a vida e corre um grande risco de causar ainda mais dano para quem tenta sobreviver. Ou vamos esquecer que a mesma política que prende uma mulher trans por ter violentado sexualmente uma criança é a mesma política que permite que se utilize do próprio corpo para a garantia da sobrevivência?

 O que se propaga por aí é que o grande erro da reportagem foi fazer a gente sentir empatia por alguém que deveria ser punido de todas as formas possíveis. Porque além de tudo que já foi mencionado, o que me espanta é que a função do médico, agora, não é mais para todos.

 Mas como dizia o velho ditado quem com ferro fere, com ferro será ferido, é oportuno dizer: tenho medo, pois já não sei qual prisão é menos segura, lá dentro ou aqui de fora.                   

Por: Leandro Salgentelli

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