DO QUE VOCÊ TEM MEDO?

Por: Leandro Salgentelli - 08:00




Adoro Marília Gabriela, é uma excelente profissional e muito inteligente. Quando assisto ao programa dela consigo perceber sua simpatia e simplicidade, e além disso, vejo que ela consegue pegar no ar o que alguns entrevistados tentam camuflar. Mas com ela, sinto em lhe dizer: não conseguem. Sempre reparo nas perguntas que ela faz, e a que sempre me pega de jeito é quando ela pergunta: um medo?

Me pego imaginando ela fazendo esta pergunta: e ai, Leandro, do que você tem medo? Tenho medo de amar muito e não ser amado. Tenho medo da morte, não a morte definitiva, mas da morte em vida. Tenho medo de me perder e nunca mais me encontrar. Tenho medo das palavras ditas, e mesmo que ela doa muito, tenho mais medo ainda das não ditas, aquelas que ficaram para dizer, mas não disseram por medo de causar algum dano. As palavras não ditas elas sempre quer dizer tudo, mas não diz por não ter coragem, e mesmo não dizendo, você entende o recado. Tenho medo do silêncio, não o silêncio da noite, mas o silêncio que vem de dentro (dos barulhos constantes também tenho).

Tenho medo do bem-intencionado, afinal, nunca se sabe qual é a verdadeira intenção. Tenho medo das brigas que tenho comigo mesmo, algumas parecem que não têm volta. Tenho medo das minhas vontades, porque elas sempre são insanas e quase nunca sensatas. Tenho medo dos olhares que me cercam, da pressão que me impõe. Tenho medo de não sentir nada — e confesso esse é o meu maior medo. Tenho medo da mágoa, sempre tento afastá-la, mas fazer o que se elas nos cercam?

Tenho medo do meu próprio desequilíbrio, embora seja necessário para o aprendizado. Tenho medo do inverno chuvoso, aquele inverno que acontece dentro da gente, aquele frio que vem da alma e que cobertor nenhum resolve o problema. Tenho medo das minhas lágrimas, principalmente quando sei quais são os seus motivos, elas saem desenfreadamente, sem pedir licença, sem pedir por gentileza. Sei que sabemos de todos os motivos quando elas saem sem ser cortês, mas às vezes fingir de distraído parece que resolve o problema. Ou piora. Nunca se sabe ao certo em que ponto nós estamos.

Tenho medo de ser mal interpretado quando escrevo sobre coisas criteriosas, até mesmo quando é algo banal, acho que é insegurança. Tenho medo de ser seguro demais, segurança também pode ser visto como arrogância. Tenho medo de conjugar um verbo errado e me perder entre o passado, presente e futuro. Tenho medo dos adjetivos que me caracterizam, os adjetivos sempre são complexos, nunca permanece em um estado. Diferente dos substantivos que sempre são substância própria.

Tenho medo de ser copia falsa daquilo que me ensinaram como certo. Tenho medo da superficialidade, pois tudo que é muito público me dá náuseas e tudo que é muito original, é cansativo. Tenho medo de não saber equilibrar esses dois. Tenho medo de não saber equilibrar o mau e o bom. O mal e o bem. Ou seja, tenho medo de não saber equilibrar a vida no seu próprio desequilíbrio. Tenho medo desse próprio medo que me cerca, que me para, neutraliza e que muitas vezes me congela. Esse medo que muitas vezes me impede de ver coisas incríveis, e outras vezes me permite estacionar, desacelerar para observar.

Depois desse relato, Marília Gabriela iria olhar para mim e soltar uma gargalhada dizendo: “Corta! Eu pedi a você um medo, e não um relato desenfreado, você é neurótico ou perturbado?”.

Eu, automaticamente, soltaria um riso no canto dos lábios e iria dizer: também tenho medo das perturbações neuróticas diárias.

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