[CRÔNICA] BAILARINA ELA NÃO É

Por: Francine S. C. Camargo - 00:22



De um sobressalto, levanta-se da cama, sem aviso prévio. Pensa se alguém lhe havia perguntado se é isso mesmo que deseja. Não, um sonho a mais, por favor. Mas não foi bem isso que se deu. Alguns choros, que juntos não somam mais do que seis anos, repercutem em seu quarto, mesmo que, propositadamente, os quartos sejam um pouco distantes do seu.
Tempo de trocar fralda, lembrar o xixi do grande, o seu mesmo fica para depois, limpar os mucos que douram a face do menor, escovar os dentes, tantos dentes, remédio de asma e o relógio, nesse meio tempo, andou avançando alguns minutos acelerado. Bailarina ela não poderia ser às seis da matina.
Olha-se ao espelho, enquanto os dois se estapeiam entre as pernas dela. Deuses da natureza! Que círculo lúgubre e cinzento é esse abaixo de seus olhos turvos? E essas erupções tomando formatos exacerbados? Procurou bem e tinha certeza de que ontem não havia essa imagem sentenciosa ao reflexo. Não procurou direito decerto, pois olheira, remela e pereba só a bailarina que não tem.
Serve o café a quem deve, por direito, tomá-lo e vai vestir algo passível de ser conferido às ruas, basta que a calcinha não marque, o sutiã não salte aos olhos e as meias, se notadas, sejam do mesmo par, ao menos semelhante. Mas faz uma paradinha obrigatória no banheiro antes, em raros segundos de sossego, visto que ela não é bailarina, e de vez em quando, tem piriri.
Apressa um pouco quem tende a devanear por sobre o copo de leite, pois a rotina bate à porta. Para sair, é preciso falar mais alto, até prometer penalidades a quem não obedecer, já que ela se descuidou um bocado do relógio; assim, perde um pouco os bons modos e, convenhamos, quem tem maneiras é a bailarina, o que ela tem são contas para pagar.
O dia vai se despachando sem atalhos e o que comeu ainda nem foi digerido, o esmalte das unhas a ser roído e as feridas do coração nem band-aid teve tempo de colocar e ela corre, corre, corre, uma vez que não sabe dançar e só bailarina não tem nenhuma casca de ferida.
Já quase não alucina, não fica divagando no caminho para casa sobre as próximas façanhas, pois realidade se lança na agenda onde escreve vocábulos enigmáticos sobre os itens a comprar, emendar, quitar. Em casa faltam móveis, falta consertar aquela infiltração antiga, falta ligar e marcar consulta para a mãe...ah, mas a bailarina não, essa nem tem esse tipo de problema, mesmo se futucar bem.
Essa noite, depois que todos forem descansar, ela promete a si mesma um banho cuidadoso, tirar qualquer cheiro persistente de creolina e arrancar os pelos pela raiz, porque confessa em seu jeito não-bailarino de ser, ela sabe fazer seus pecados, mal a missa termine.
E até que bem ao fundo, procurando bem mesmo, algo de bailarina ela tem. Já se machucou tanto a pobre mulher, tanto já desabou ou foi desmoronada que hoje enfrenta qualquer plateia, em postura ereta, só que sem sapatilha. Não é mérito só seu, bailarina. Pois medo de cair, gente, ela não tem.



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