MUITO

Por: Francine S. C. Camargo - 23:43


 Há casas que ainda não foram habitadas. Há gente que não fala a mesma língua e nem língua alguma. Há línguas que não se soltam do céu da boca, e ficam ali amorfas e taciturnas, escondendo o não-dito.


 Há nuvens de chuva que se concentram acima da janela. Há roupas no varal que nunca mais querem secar. Há presentes esperando pelo seu sono e encontros que jamais acontecerão.

 Há paredes descascando no quintal e o sol queima o chão, esperando para aquecer os pés, mal o dia começou. Há corpos consumidos pelo cansaço, que teimam em não trazer o olhar para a rua, em casa estão com os pés gelados.

 Há uma sede indomável coçando a garganta e, por mais que os dias passem, não passará. Há alicerces desmoronando e a sabedoria pode ficar, mas as dores invadem e não se pode mais seguir em frente.

 Há muita verdade inventada e muita mentira farejada, muito corpo irresponsivo, muita morte desconhecida e muita vida embrutecida.

 Há muita melodia cantarolada e muita dança desconjuntada, muita gente atacando e pouca defesa, apesar de muitas barreiras. Há muitos prontos para chorar, poucos são os que podem rir.

 Há muita crença e pouca filosofia, muito diz-que-não em quem pouco aprendeu sobre o sim, muito susto e pouca surpresa, muito dedo apontado para pouco abraço.

 Há muito em demasia: leituras recortadas, amores descompostos, pensamentos descoloridos, sonhos inconquistados.

 Há muita porta fechada, rede desocupada, armário embolorado. Há muito ar fora do pulmão, dentro do carro, enchendo balões, queimando florestas. Mas com pouca paixão, não há ar que nos falte.

 Há muita dor de cabeça, na perna, nas costas, mas pouco se sabe sobre o câncer na alma, que envinagra o convívio e corrói em silêncio.

 Há muito não gosto, não quero, não posso. Pouco pois não, pouco sempre, pouco estou aqui, de fato estando. Há pouca lixeira para tanta palavra jogada fora. Muito tem que, muita ideia de tudo e pouco vamos não entender nada juntos.

 Há muita unha para pintar, cabelo a transformar e sinapses a conquistar. Há muito relógio tiquetaquendo, ponteiro correndo que nem coelho maluco e o tempo vai afortunadamente passando sem ser percebido.

 Há sangue fora das veias e buracos que não fecham, nem com concreto, nem com band-aid. Há muito que decifrar antes de ser devorado. Há tanto o que fazer e mais ainda a não fazer. Há tanto que não saber antes de se realmente saber. E, entre uma náusea e outra, ainda a vida implora para ser celebrada.

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7 comentários

  1. Amei o texto! Amei de verdade! Está tudo aí! A correria da vida, o pouco caso dispensado pra mente, corpo, alma e coração. A cegueira que faz a vida ficar cada dia menos saborosa e mais difícil de digerir. Parabéns!


    Bjoxx ~ www.stalker-literaria.com

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  2. Caramba, que texto mais gostoso, li ele todo sorrindo porque quando a gente se encontra em algum escrito é algo pra lá de surreal. "Há uma sede indomável coçando a garganta" que passagem mais linda.

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    1. Dayhara, que legal saber disso, sorrindo por aqui também com sua mensagem.

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  3. Oi Fran!

    Tudo bem? Nossa que texto! Meu Deus está incrível!!! A vida da gente anda tão corrida que realmente parece que tenho tão pouco tempo para tudo e faço o que tudo de maneira tão corrida para conseguir dar conta que acabo negligenciando algumas outras coisas importantes. Seu post está maravilhoso e foi muito bom lê-lo e refletir sobre esta questão.

    Beijinhos - Jessie
    www.paraisoliterario.com

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    1. Jessie, que coisa linda de ler. Obrigada pelo carinho. Beijão.

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  4. Um texto lindo, que me fez parar para pensar na quantidade de coisa que tem para acontecer, que muita das vezes passa despercebido, na mesma proporção que temos muitas acontecendo. Gostei muito de cada um dos versos e todos são extremamente coerentes com a nossa realidade. Parabéns pelo texto, está perfeito.

    Abraços.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com/

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