domingo, 13 de maio de 2018

ELA SABIA


“Tudo é incerto neste mundo hediondo, mas não o amor de uma mãe.”
(James Joyce)
 Então o amor explodiu, sufocando, mas abastecendo o peito, de leite, de vida, de sonhos. Então surgiu o Amor apaixonado, com dedicação exclusiva e que, ainda assim, fez com que ela gostasse mais de si mesma, valorizando suas melhores virtudes. Amor que faz feliz, ao se olhar para o nada; que faz a rotina ser uma delícia. Amor que dá um suspiro aliviado quando todos dormem e, dali a pouco está morrendo de saudade. Amor que guia, que gruda, que brilha e inunda. Amor que move, liberta, refaz e impulsiona. Amor que faz ser a cada segundo, que toma o minuto para si. Amor que é um, dois, cem por vez. Um melhor que o outro.

 Entretanto ela sabia...

 Ela sabia que chegaria a hora de ele sair de dentro, mesmo que doesse, mesmo sem um choro imediato. Então, esperou, sem antecipação.

 Ela sabia que teria de acalentá-lo com outros tecidos que não fossem o seu ventre, o mais aquecido de todos. Então, ela se aplicou.

 Ela sabia que o momento de o alimentar com outros nutrientes que não fossem o seu seio assomaria. Então, ela se doou, sem urgência.

 Ela sabia que teria que vê-lo dormir em outro recanto que não fossem os seus braços. Então, ela o encobriu de calor.

 Ela sabia que teria que vê-lo andar sem segurá-lo pelas mãos. Então, ela as apertou com solidez e determinação.

 Ela sabia que o veria dizer tchau e virar as costas, partindo sozinho, para o lado oposto. Então, caminhou ao seu lado, ajustada o quanto pôde.

 Ela sabia que teria que acompanhar a noite sua respiração ofegante, uma vez que respirar por ele não podia. Então, suspirou e vigiou seu sono.

 Ela sabia que o veria praticar a leitura de um livro com seus próprios olhos, por sua conta. Então, esgotou saliva e devaneios a contar-lhe suas estórias de vida.

 Mas não se organizou para aquele momento. Não estava pronta para vê-lo subir no andar mais alto, para vê-lo escorregar no escorregador de aventura mais verdadeira.

 Mas quão alto ele poderá ir?

 E quão alto ela o deixará ir?

 Ela sabia que chegaria a hora em que ficaria embaixo, vendo-o desafiar seus limites e fugir dos extremos dos seus sonhos. Então, sonhou junto, bem perto, sem fim.

 Eclodiu uma nova mulher, mãe em si, para o outro, mãe do novo, rasgada ao meio, rompida em tantos pedaços quanto se fizessem necessários, mas toda ela coberta de abraços e desafios, com fuligem no rosto pelo incêndio da alma.

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5 comentários:

  1. Que texto! Ser mãe, abraçar a maternidade é algo tão intenso e complexo que nenhuma palavra consegue expressar sua totalidade.

    Obrigada por compartilhar esse texto incrível.

    Beijos.

    www.alempaginas.com

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  2. Não sei como consegue colocar tantos sentimentos em palavras e estas palavras narram de forma magnifica os sentimentos da maternidade. Mesmo sendo mãe eu nunca conseguiria expressar tudo que envolve essa transformação e este texto bem fez isso. Amei.

    Abraços.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Ah, Camila, nem sei também, é que às vezes o amor quer sair por todo canto, pelos poros, pelas digitais e assim sai algo...hehehe. Obrigada pelo carinho. Abração.

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  3. Olá!
    Apesar de não ser mãe ainda, deve ser um sentimento incrível e transformador na vida de uma mulher. Gerar um ser humano, dar amor, cuidado, orientação, são tantas coisas que é difícil até definir a importância dessa função.
    Amei seu texto. Lindo e muito delicado!
    Beijos!

    Camila de Moraes

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