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[FRANCAMENTE] MEU CRIME É NÃO SER LIVRE

Por Francine S. C. Camargo •
domingo, 21 de junho de 2020

Como é possível libertar uma mente que prefere a escravidão como sistema de vida? Como se desencarcera alguém que tem a alma de escravo, em que a submissão cabe bem perante os dias, organiza as tarefas e traz o grau máximo de segurança?

Escravo se torna aquele que está preso a dogmas e convicções extremistas a respeito de si, a respeito do outro e tão escravo quanto esse, é o que depende de aprovação, que necessita de opinião alheia, estando sob o poder absoluto de alguém, oferecendo-se como instrumento à autoridade de outra pessoa.

Para se reconhecer escravo, é fundamental viver simplesmente quase sem propósito ou sintonia com ao menos um objetivo, com aquilo que é passível de acontecer na vida se delineando com muita facilidade e sem imprevisibilidade.

Quem se torna escravo não busca decisões por si mesmo e deixa que se apague lentamente a sua razão vital; aos poucos também cada companhia se afasta, pois não é natural para quem é livre gostar da escuridão.

A escravidão é como sentir-se anestesiado, porém com o corpo e a mente travados em uma prisão auto construída. E, para garantir que não se fuja da sua própria sombra, alguns se acorrentam de forma a privar-se, depois de um tempo, de qualquer movimentação. É conhecido que quem não se movimenta, não sente as correntes, por outro lado, qualquer tentativa passadiça de livrar-se de tais elos, traz um ar de estranheza: o que mesmo você deseja e para onde quer ir?

Muitas vezes quem está atado em seus próprios calabouços não entendeu ainda que raios de sol podem decompor as correntes; que as renúncias à vida não precisam ser concludentes, já que todos chegam um dia ao fundo, sem volição para subir, sem interesse em expor-se ao sol.

Ao final de horas mórbidas, sem prazo de validade, quando a imobilidade foi o único desafio proposto, não é mais possível continuar parado, pois a alma berra para que se recobre a continuidade.
E depois de um certo tempo na masmorra faz-se imperioso sair lá fora, lá em cima, para saber se é dia ou se é noite.

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