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COM ENREDO PESADO DE DIGERIR, CONHEÇAM O AMBIENTE ONDE UNA FOI QUEBRADA

Por Bruno Marukesu •
quinta-feira, 19 de março de 2020
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West Yorkshire, 1977. Um assassino em série está aterrorizando o pequeno condado inglês, e a polícia encontra dificuldade em resolver o caso – mesmo tendo interrogado o assassino (sem o saber) nada menos que nove vezes. Enquanto a história se desenvolve ao seu redor, Una, então com 12 anos, vivencia uma série de atos violentos pelos quais se culpa. Por meio de um entrelace de imagem e texto, Descontruindo Una examina o significado de se crescer em meio a uma cultura na qual a violência masculina não é punida ou questionada. Com uma retrospectiva de sua vida, Una explora sua experiência e se pergunta se algo realmente mudou, desafiando a cultura que exige que as vítimas de violência paguem por ela.


DESCONSTRUINDO UNA foi uma leitura bastante difícil de ler. Você não se sente a vontade em nenhum momento, é quase difícil respirar pois é impossível você não se colocar em sua pele.


 Una nasceu no início da década de 70, no oeste do maior condado do Reino Unido. A sua formação como pessoa destoa-se das outras gurias. Não lhe foi ensinado o que era certo e errado, não lhe foi ensinado sobre sexualidade. Logo, ela não sabia que iria crescer tendo o seu corpo objetificado e suas escolhas julgadas a todo estante. Não lhe foi dito que seria chamada de vadia, por beijar um garoto comprometido, por onde andasse. E muito menos foi lhe alertado que um homem adulto quando toca em uma criança está violando o seu corpo e mente.

 A HQ autobiografia tem uns tons bastantes sombrios que demonstram o mar de confusão interna onde Una se escondeu enquanto crescia. Li a obra no Kindle então não pude ter contato com as cores, somente com as ilustrações em preto, branco e cinza.

 Além de acompanharmos o triste relato de Una, somos inseridos no contexto histórico em que ela cresce. Onde o Estripador de Yorkshire praticou feminicídio e a polícia tentou a todo custo enquadrá-lo como um maníaco por prostitutas mesmo tendo relatos de que ele atacou outras mulheres independente de suas profissões. Logo, temos duas raízes narrativas que querendo ou não se interligam, pois demonstra o quanto a sociedade julgava as mulheres, onde prostitutas mereciam o seu fim na faca de um assassino e que mulher decente não andava sozinha, com roupa inapropriada e em horários "incomuns".

 Una não é somente uma HQ sobre violência ao corpo infantil e feminino. Não. Una é uma obra histórica e reflexiva que faz o leitor refletir e se questionar junto a escritora do porquê as mulheres são, em suma, o alvo de violências domésticas e abuso dos homens. Além de necessário, está HQ deveria estar como obra obrigatória em cada escola do mundo.

 Com uma capa maravilhosa, a arte da obra é admirável. É como se a cada página estivéssemos sendo agraciados com pinturas que deveriam estar em exposição. A tradução está impecável com uma escrita fácil e crua de entender; meus parabéns a tradutora Carol Christo. A editora Nemo caprichou na edição.

 Recomendo a obra para todo o leitor que busca informação histórica, que não aceita o abuso infantil, que valoriza a literatura escrita por mulheres e que está cansado do corpo feminino ser julgado e explorado.

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