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[FRANCA MENTE] O TRABALHO DE PENSAR

Por Francine Camargo •
domingo, 19 de janeiro de 2020


Eu mesma não entendo minha enormíssima paciência de ficar à toa, só pensando, pensando e sentindo.Adélia Prado



Pensar em si mesma é tarefa fácil para Joana. Ao telefone, durante as compras, em meio ao caos do trânsito, buscando os filhos na escola, é sempre hora. Transporta suas inseguranças para onde for, sem vacilo, terapia diária, não se esgota de si.

Outro dia, Joana comentou, à fila do supermercado, como suas cicatrizes estavam evidentes, deixando à mostra todo o padecimento do passado. Mais tarde, na sala de espera do dentista, deixou escapar que mal sorria, desconfiando mostrar demais. No trabalho, atrás do balcão, ela olha a vida passar pela porta, expira e reinala o tempo perdido. 

Rosto apoiado nas mãos, lamenta para a cliente que queria mudar, produzir algo diferenciado, algo que ninguém ainda sonhou. Mas acrescenta que sonhar é pouco, é só devaneio, cabeça nas nuvens não põe comida na mesa e ela não consegue parar. Parar para tomar um café bem tomado, parar para criar, parar para acalmar o espírito, nem parar para olhar-se um pouquinho ao espelho e tentar encontrar aquilo que lhe falta. Parar! Joana acha importante relaxar, mas isso pode esperar.

Talvez tire umas férias no ano novo que chega, pensa até em comprar uma lingerie nova para usar no aniversário de casamento, tentar recuperar a atenção do esposo, tão disperso que anda. Mas sua lista mental de afazeres é tão longa, e já está na hora de sair, é a tarde que a obriga.

E continua a pensar. Por ora, só pensar.

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