DO OUTRO LADO DO RIO

Por: Leandro Salgentelli - 13:40




Semana passada uma amiga me disse que gostaria de ter a vida que levo. Que vida, afinal, eu levo? Não acredito que minha vida seja diferente de tantas outras a ponto de causar inveja. Vai por mim: minha vida não é tão interessante assim. Estudar, trabalhar. Estudar e trabalhar. Não há nada de exótico. Então ela concluiu: “Sei lá… hoje estou casada e tenho filhos, mas queria enxergar as mesmas coisas que você enxerga”. Pedi que parasse de dar voltas e admitir para si mesma que gostaria de estar solteira. Ela: “Tá vendo…”. Conclui: Todo mundo almeja estar do outro lado do rio.

Já ouvi essa expressão por vários escritores e conterrâneos. Diante da realidade que nos cabe, almejar o que há outro lado da margem é o que mais sabemos fazer. Como seria se estivéssemos lá… Quem nunca? A reticência nem sempre pode ser completada e é aí que nasce nossa especulação.

Fulana é rica e tem a vida que pediu a Deus, numa semana está na França e na outra está em Manhattan, mas será que nunca passou pela cabeça dela que ficar num lugar fixo pode ser mais prazeroso? Sicrana mora no subúrbio volta e meia pensa em estar na França e na outra semana em Nova York. Beltrano está casado e almeja ficar solteiro. Quem está solteiro quer casar. Acreditem: todos almejam estar do outro lado do rio.

Com isso as pessoas vão criando uma necessidade de estar fora daquilo que um dia almejou, até porque a novidade também envelhece e a estabilidade nem sempre favorece, no entanto, já nem estou mais falando da vontade de estar do outro lado, mas, sim, da frustração.

Pessoas que ficam presas a rotinas são pegas pelas cobranças internas. Criam expectativas de que um dia irão transformar tudo que sonhou em realidade. Torço para que vire mesmo. Mas sabemos que nem tudo que sonhamos sai de acordo com a circunstância. A rotina alimenta a necessidade de ver o mundo, no entanto, quem já está vendo o mundo, almeja a rotina. Briga doída essa, não?

É claro que ninguém impede de abrirmos mão de tudo e embarcar no desconhecido. A instituição não impede. O Papa também não. Mas quem ousa se não temos conhecimento prévio do que há do outro lado? E se na travessia nos afogar? Não correr riscos é inevitável. Uma escolha aqui se transforma em consequência bem ali.

Do outro lado do rio é instigante. É a senhora ambição.

Imaginar como seria estar do outro lado causa febre. Dor no estômago. Úlceras. Imaginar como seria lá nos coloca em movimento para continuar na caminhada. E quando chegamos lá olhamos para outros rios e nunca damos por satisfeitos. Ainda bem.

Você pode dizer ao mundo que está feliz na vida que leva. Você pode dizer que adora levar os filhos na escola, ler para eles, fazê-los dormir. Você pode dizer para si mesma todas as noites que ser mãe é a melhor coisa que lhe aconteceu.

Você também pode dizer ao mundo que estar a cada mês em um país é o que mais sonhava. Pode exalar felicidade. Pode espalhar glamour, poder, riqueza. Você pode tudo. Pode dar ibope na mídia de que é um exemplo de vida que pediu a Deus. Você pode convencer a todos — inclusive você mesma. Mas sempre vai especular como seria estar do outro lado rio.

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