REPLETA DE METÁFORAS E DEVANEIOS CONHEÇA A OBRA DE PAULO ABE: UM CORPO DIVISÍVEL

Por: Adriano Silva - 21:51



Livro: Um corpo divisível
Páginas: 104
Autor: Paulo Abe
Editora: Penalux
Onde comprar:Editora Penalux

Um corpo divisível é um conjunto de contos que representa a metáfora do tema problematizado por Paulo Abe em cada uma das narrativas, contadas ao contrário, no revés de um nascimento em que se descobre gêmeo de outro. Do locus inicial, a morte, até a chegada ao ponto de reencontro consigo e com o seu outro: o útero. 

Quando recebi a lista de livros da Editora Penalux para a escolha da resenha de cara me apaixonei pela capa do livro do Paulo Abe.

A capa azulada e fosca, o homem caindo na superfície da água fez com que Um Corpo Divisível se tornasse o meu queridinho e meu livro de cabeceira.

Paulo Abe consegue criar uma autobiografia fictícia de um Paulo que tem projeções em si e em um irmão gêmeo, o Marcos. 
Um corpo divisível
Foto: divulgação Editora Penalux

Durante a leitura, logo no início do primeiro conto; Ninguém, eu já fiquei com a dúvida se o Paulo autor era o Paulo personagem. Acredite, eu fui pesquisar a vida do Paulo Abe e apenas depois dei sequência à leitura. Precisava saber se o autor tinha um irmão e, se tivesse um, se ele era seu gêmeo.

Interessante a forma que o Paulo Abe conduz a narrativa, todos os contos possuem conexões e nos levam a refletir e nos questionar sobre nossas próprias ações. 


 "Desde criança nós éramos vistos com as mesmas roupas, éramos a mesma pessoa, duas faces de uma mesma entidade, dois lados antagônicos ainda que de um mesmo organismo."


Um Corpo Divisível tem teias invisíveis e que conectam um mundo onírico a um mundo real, tudo isso de forma magistral, uma das minhas melhores leituras de 2019 e uma grande descoberta num mundo de livros muito parecidos.

Não somente a escrita do Paulo é algo que chama atenção, mas também a edição do livro em 14x21, folhas amareladas e fontes confortáveis para a leitura. Uma obra impecavelmente bem revisada.
  
 
SINOPSE DA EDITORA

 Um corpo divisível é um conjunto de contos que representa a metáfora do tema problematizado por Paulo Abe em cada uma das narrativas, contadas ao contrário, no revés de um nascimento em que se descobre gêmeo de outro. Do locus inicial, a morte, até a chegada ao ponto de reencontro consigo e com o seu outro: o útero. Em Ninguém, o autor tece uma projeção, que, como tal, forja-se num mundo irrealis, mas cujos elementos e fatos são tão íntimos do narrador que lhe soam já conhecidos, justamente porque se revela como premonição, a premonição de uma vida esgarçada pelo duplo. Autor e narrador confundem-se ao longo das histórias bem articuladas. Ao mesmo tempo que clama sua una cellula e seus olhos em in altera vita, erige um interlocutor plural, em nenhum momento individualizado em sua condução das experiências de leitura que promove. O narrador identifica-se homonimamente ao autor situando de pronto sua problemática existencial: sua condição de gêmeo, nascido em família nipônica e num ambiente de competição provavelmente fraternal: “inseparáveis”, “inimigos e seu contrário”. Impossível interromper a leitura das teias que nos vão prendem. A essas mesmas teias prende-se igualmente Paulo até os 20 anos, mas o parâmetro similar é inescapável: “uma vez iguais, tínhamos de ser diferentes”. E num jogo de ambiguidades e felizes extensões metafóricas, o narrador, talvez autor, talvez Paulo, revela seus dilemas entranhados desde a morte até o útero, único percurso possível e plausível para compreender a dissonância entre idênticos e desiguais. Essa dissonância vai se reverberando em cenas simples recolhidas de um plano memorável para nos fornecer mais e mais instantes de pura entrega ao que de melhor as produções literárias podem nos trazer: fruição, puro prazer. Nos demais contos do conjunto, os quais podem ser lidos em ordem totalmente aleatória sem perder a qualidade da teia tecida que nos acalora o espírito e nos prende a atenção, a sensação de, às vezes, entrar nessa rede de pensamentos e de sensações confusas alça-nos ao ápice. Todos os momentos de pequenas mágoas revividos pela memória de convivência entre sublimes alegrias e ínfimas injustiças vão se (des)fazendo nas várias cenas de O Relâmpago, segunda instância em que imagens sinestésicas são oferecidas como um  estado emaranhado , um momento sobreposto de vida e de morte. Ao plural leitor resta um misto de sensações, inomináveis, insofismáveis, que começam a se materializar em Binômio com uma lufada de questões filosóficas, o ego ingressando na mais recôndita porção do alter como se o soubesse atemporalmente: afinal, teve “de responder sempre a dois nomes publicamente” e estranhamente no espaço mais íntimo raramente era ele próprio, não porque não o quisesse, mas porque era (in)divivísel desde o permastore até o meio-luto e, depois, à reconstituição unicelular. Só quando adentramos o Labirinto voltamos a nos colocar em nosso corpo novamente. Até então, só Paulo e Marcos Paulo, dois desfeitos, um renascido do fim ao começo. E com essa trajetória Paulo Abe se discerne de si mesmo, constitui-se como um grande talento no campo literário, um autor que conduz seu leitor a sensações que jamais poderia vivenciar se não pela teia de um espaço-tempo motivado em dimensões (ab)solutas e (i)mutáveis da realidade de um que desde o útero conviveu com um outro um, numa relação de conhecer-se continuamente. Esse talento foi, em 2018, vencedor do Prêmio Nascente da USP e sagra-se como uma promessa literária brasileira.





Escritor Paulo Abe

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