QUEBRANDO TABUS, DAIANA AZEVEDO DESCORTINA O PRAZER FEMININO ATRAVÉS DA VIVÊNCIA DE ANNA

Por: Bruno Marukesu - 09:00

Título da Obra: ProfAnna
Autor(a): Daiana Azevedo
Ano da publicação: 2017
Nº de Páginas: 138
Selo: Lampejos
Onde Comprar: EDITORA PENALUX
Livro cedido em parceria com a editora

ProfAnna contará a história de Anna, uma mulher que em meio a diversas dificuldades resolve ganhar a vida como prostituta na capital do RJ. É um livro para desconstruir tabu, um livro intenso e que fala muito mais do que apenas relatos picante.

O DRAMA gira em torno de Anna, uma jovem que recentemente teve o seu casamento arruinado por uma traição. Garota simples do interior, ela decidi ir para a cidade grande tanto para se restruturar - visto que não tinha como permanecer em sua cidade com o seu círculo social sabendo do escândalo e sem o apoio da família - quanto para ter a experiência de ser a dona do seu próprio destino.

 Logo de cara a autora joga um banho de água fria na imagem enraizada na sociedade, e reconfirmada pela mídia, de que morar só e em outra cidade é sinônimo de felicidade extrema. O único lugar que Anna consegue alugar com o dinheiro que possuí, após passar alguns dias em uma república, é um cubículo com cheiro de mofo e móveis velhos. Mas Anna não tem muito do que reclamar até porque só tem a roupa do corpo e uma mala vermelha abarrotada de pertences, e também o valor do aluguel é uma daquelas oportunidades que se você não fecha na hora demora uma vida para surgir outra.

 A situação parece só piorar quando ficamos cientes que nossa protagonista nunca trabalhou antes pois era somente dona de casa em seu antigo casamento. Logo, sem formação e experiência alguma ficamos naquela tensão se vai conseguir um emprego e como será tratada. E para a minha infelicidade ela justamente passa por um episódio que para muitos seria traumatizante mas que ela conseguiu erguer a cabeça e seguir em frente com o pedido informal de demissão.

 Sabe aquelas coincidências em enredos que você pensa: não é possível que só desgraça ocorra na vida desse personagem? Pois é justamente nesse ciclo que Anna se encontra e em uma dessas coincidências ela recebe o convite de uma desconhecida para adentrar o mundo da prostituição.

 Esse assunto poucas vezes foi abordado pelo prisma da visão dessas professoras do amor. Na maioria exorbitante das histórias elas são usadas como escapes do estresse de homens infiéis após o dia cansativo de trabalho, ou como máquinas de sexo à disposição dos homens que pode fazer sem sofrer consequências pelos seus atos porque estão pagando pelo sofrimento (WTF?!). E infelizmente nesse último ponto a realidade é revoltante. A profissão dessas mulheres não é regulamentada pelo Governo, ao contrário, ela são silenciadas e só ganham as manchetes e opinião pública quando um atentado cruel ocorre nesse meio. A autora Daiana até apresenta um episódio onde Anna acaba sofrendo maus tratados por um cliente e não pode prestar nenhuma queixa na polícia.

"A sociedade quer ver a prostituta como uma vítima do capitalismo, quer que a gente se esconda e quando fugimos as expectativas deles, somos vistas com mais preconceito do que o de costume."
página 62-63

 Mesmo que o foco do livro pareça ser aos leitores somente o submundo onde essas professoras estão localizadas ele vai muita além e isso foi o que me fascinou. É a jornada da mulher em encontrar o seu próprio prazer, conhecendo o próprio corpo e aquilo que a excita, vendo nos olhos do(a) parceiro(a) sexual - que pode ser o(a) companheiro(a) ou somente um casual - o poder que emana e a dominação que pode exercer mesmo que seja, infelizmente, somente entre quatro paredes. Por longas páginas foi inegável a comparação/semelhança que fiz com a história da famosa Bruna Surfistinha e isso me causou  um desânimo, mas quando percebi essas questões fundamentais que as mulheres deveriam, sim, conversar diariamente passei a enxergar a história com outro ângulo e aquelas falhas que nutri caíram meio que por terra.

 Mas ainda assim fica o alerta de que está obra é o relato de uma profissional do sexo que se deu bem. Infelizmente não é sempre que isso ocorre nesta profissão, são casos à parte que devem ser tratados em sua individualidade e não usados como genérico.

 Senti grande falta de gama de personagens secundários. Geralmente, eles me são os personagens que mais gosto porque quando leio uma história somente pelo olhar do protagonista sinto que ajudo a nutrir junto com o(a) autor(a) o egoísmo, então quando há muitos personagens secundários tudo se torna complexo e temos uma visão mais abrangente dos cenários.

 Orlando, que é o par romântico de Anna, não me despertou suspiros de amor. Não consigo mais engolir com facilidade personalidades a la prince de contos de fadas, preciso ver mais personalidades reais em relacionamentos não-idealizados, mas isso é algo muito pessoal que varia de leitor para leitura e seria ingenuidade minha apontar isso como erro na escrita da autora.

 Claro que alguns dramas clichês presentes na obra poderiam ter sido apagados com uma borracha - pelo menos eu apagaria um certo funeral e pedido de desculpas - mas se pararmos para refletir que a maioria das nossas vivências humanas são similares pode ser inalcançável querer que tudo seja “fora da caixinha” da realidade apresentada.

 Com uma capa que não faz jus ao enredo, a obra física tem uma gramatura grossa ótima, páginas amareladas, capítulos curtos, fonte das letras e espaçamento das linhas em tamanho grande que aliados a fluidez na escrita da Daiana Azevedo produzem uma leitura rápida e sem muito contratempos. Editora Penalux caprichou e muito na edição!

 Mesmo com minhas ressalvas que são bastante pessoais e arbitrarias recomendo a obra para aqueles que estão dispostos a ler um bom livro erótico nacional sem cair no apelativo que esse gênero propicia.

 Ficou interessado? Então tenha um gostinho do enredo clicando AQUI.

Até mais. 🌈

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