CONTO DE NATAL: A CABANA

Por: Francine S. C. Camargo - 23:50



PARA chegar até a cabana, foi necessário enviesar-me por um caminho esguio, ensolarado e ermo, porém ocupado de vegetação e algum sigilo, guardado naquela vastidão, a sete chaves, em clima de silêncio e zombaria. Ponto final, enigma de esfinge, dia de Curinga, não sei bem o que posso encontrar.

 Mas algo me convoca até lá, desde o meu despertar. Não me nego a aventuras, não me escondo com medo de chuva, de folhas, de brisa, procuro mesmo o novo e sou cordial com o desconhecido. É para lá que vou, para onde ouvi o chamamento, o bilhete na caixa de correio, para o lado do não sei, com quase nenhuma indicação. Não saberei.

 E, então, rasga-se para mim a visão de uma clareira, onde descortina-se o tal casebre, com plantação ao redor, bem zelada; e uma melodia quase dançante do correr de um riacho distante. Prefiro o gemido da porta de madeira semiaberta, a revelar o interior do meu local alvo, é tudo que me interessa.

 Entre bastante umidade e alguma escuridão, posso distinguir uma certa ordem na posição de cada item a preencher a pequena morada: livros ocupando a estante, manta a cobrir uma surrada e taciturna poltrona, o que, de modo algum, exclui sua cara de aconchego; o convite que me faz, de por ali mesmo amansar minha impaciência, é tentador. Ouso parar, mas a curiosidade não me detém.

 Na cozinha, anexa à sala, o aroma denuncia a mistura de temperos na panela desligada há pouco. Quem quer que aqui habite, tem planos para o almoço, talvez soubesse que eu não hesitaria e que viria logo. Quem quer que aqui habite parece cozinhar bem.

 Reviro minha atenção para a salinha outra vez. Um baú enorme, que, inicialmente, me repeliu por parecer ser centro certo de velharias, agora me alicia. Quero tanto me inteirar de tudo, esqueço até, por alguns instantes, de que invadi a casa de alguém e posso ser flagrado em breve. Mas a culpa nem de perto surge para me condenar e abro a grande arca, com esforço maior do que o esperado e uma pitada de desconfiança de que estarei me precipitando em algum crime de outrem.

 Então, elas surgem para mim. De vários tamanhos, várias cores e espessuras, em copiosas caligrafias e endereços, fartas de desenhos, estrelas e pedidos: são cartas, de todos os cantos do mundo. A maioria segue fechada, não lida, desejo não disseminado, com confidências gritantes, clamando para serem libertas.

 Preciso avançar a busca. Carrego algumas delas comigo, para materializar um pouco o sonho que subitamente me invadiu nesse dia. Sigo para o quarto.

 Por alguma razão, não me surpreendeu encontrá-lo. Cabeleira e barba esbranquiçadas, corpo mirrado, rosto igualmente franzino, olhos fechados, em sono mítico. Algo naquela cama, naquela ausência de ritmo e sons respiratórios exalava plenitude e, por alguma razão, que agora me tomava por completo, fui escolhido para contemplar o espetáculo: do fechamento, da partida sem adeus.

 A cena toda me tomou sem ligeireza. Esperei. Foi quando o vento se infestou pela janela e derrubou o bilhete da escrivaninha: 

Elas não precisam de despedida, só precisam continuar a sonhar. Eu ofereço a você esse ofício. É tudo que tenho, foi tudo em que investi e a entrega se faz necessária, para que os sorrisos não se abandonem.

 Não precisei de respostas, pois nenhum questionamento me surgiu. Fui até a cozinha, tomei a sopa morna, que suplicava por companhia e, enquanto refletia sobre como lidaria com o corpo do doce velhinho, comecei a ler, uma a uma, as cartas das crianças e decretei a mim mesmo que elas não ficariam sem presente de Natal.

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10 comentários

  1. Que texto mais lindo! Fiquei triste com a morte do velhinho. :( Mas achei incrível a pessoa querer seguir colocando um sorriso nos rostos das crianças.
    beijos
    www.apenasumvicio.com

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    1. Obrigada, Dessa. Uma amiga minha disse com raiva de mim "eu não acredito que você matou o velhinho!!!". Mas fazia parte...pelo renascimento da ideia de fazer o bem e dar continuidade ao bem. Beijo grande.

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  2. Oi!
    Que lindo conto, fiquei comovida como a visão de fazer algo para as crianças e também triste pela morte do velhinho. Mas a esperança de poder ajudar de algum jeito motiva uma pessoa até viver melhor, parabéns, bjs!

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    1. Cris, obrigada pelo carinho. É...fazer o bem, olhar o outro, esses sentimentos e percepções vão muito além de uma vida...beijo!

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  3. É um conto lindo, mas muito triste. Fiquei deprimida com a morte do bom velhinho. Todavia, os acontecimentos deste conto também me fizeram pensar nas milhares de crianças que sonham, escrevem carta e aguardam pela chegada do tão desejado presente. E muitas não recebem nada. Ainda assim no ano seguinte insistem, não perdem a esperança... Todas as crianças merecem ter o privilégio de ser criança e não verem os seus sonhos se desfazerem.

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    1. Ah, Luna. Não fique triste. O velhinho é simbólico, entenda que ele cumpriu sua missão e precisava passar a tarefa adiante! Num mundo ideal (e por que não tentar?) todos nós poderíamos ser um pouco Papai Noel o ano inteiro.

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  4. Olá!
    Que conto incrível. Apesar de achar um pouco melancólico, tem uma boa reflexão principalmente com a idealização do bom velhinho e com tantas diferenças sociais, algumas crianças são sortudas, mas infelizmente muitas sonham porém não tem condições de conseguirem um presente, uma ceia, enfim, achei lindo demais o texto.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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    1. Camila, que legal que esse simbolismo do Papai Noel e Natal trazem essas reflexões sobre as pessoas ao nosso redor. Beijos grandes.

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  5. Ain gente, que conto lindo! Eu me arrepiei com tudo que me causou, principalmente na reflexão com a que você traz sobre os sonhos de outras milhares de crianças pelo mundo. E o que falta é pessoas que não percam a esperança e motivos para ser feliz!

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    1. Que todos continuem sonhando e quem sabe todo mundo possa ajudar um pouco com relação ao sonho do outro. Beijocas e obrigada pelo carinho.

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