[CRÔNICA] ALGUÉM QUE CHEGOU

Por: Francine S. C. Camargo - 00:43



“Há pessoas que nos roubam...Há pessoas que nos devolvem...”(Padre Fábio de Melo)

Alguém veio sem presunção, sem manifestar controvérsias. Mas também meio sem opinião. Na bagagem, não trouxe sonho, nem desejo em demasia; misto de calmaria e falta de fôlego. Deu-me um beijo com a mente já em outro mundo e em meus olhos não se enxergou. Fiquei só, mesmo em par, esperando que ele fosse, ele que nunca quis ficar. Leu-me sem fascínio e na lembrança não se colou, pois era sem jeito, sem efeito. Passou e se quebrou, como se por mero acaso, houvesse cruzado uma esquina que era só minha, até então.

Esse Alguém chegou bem perto, parou e me chamou. Não ouvi de primeira, então, insistiu com voz sólida e real, como quem me despertasse de uma noite de ilusões e tormentos. Trouxe nas mãos dezenas de grãos e, ao longo dos dias, semeou minha vida com cada um deles. Avivou minha pele fria, sugeriu rumos aos meus pés sem direção. Trouxe riso e equilíbrio, mas não pôde entrar, já que sua paz não coube em mim. Leu-me sem perigo e partiu, assim como as despedidas que acontecem todos os dias.

Já um outro Alguém avançou o mais fundo que conseguiu, bem por dentro de mim, arrancando-me de mim mesma, fazendo de mim moradia, amante em servidão. Tornei-me cativa em minha infinita solidão, à medida em que ele destroçava minha fala, minhas vontades e meu desassombro em dizer ‘não’. Por causa do medo de me expor em segredos, sequer ousei pensar. Leu-me com vaidade e esfacelou o amor que julguei existir. Ao final, rasgou cada andar do falso edifício que esbocei e ostentei ser, deixando-me agonizando em sua ausência, a temer que minha casa fosse para sempre um quarto vazio.

Mas então juntou-se a mim Alguém que só pretendia confundir, zombando das lágrimas aterradas na máscara dura e inexpressiva que eu usava como face. Em um único golpe, rompeu ao meio a falsa imagem, mas não me fez sorrir alto, nem permitiu que eu chorasse um dia a mais. Segurou minhas mãos e caminhamos em círculos. E em minha fragilidade, houve amor onde menos esperava. Contudo, embaralhou tanto os passos, que me distraiu sobre ser noite ou dia, sobre estar frio ou calor e nenhuma esperança me garantiu. Leu-me com hesitação e como medo não tive, deixei que partisse, com a desconfiança de que, a partir dessa bagunça, eu me encontraria.

Só que, quando julguei que as portas estivessem bem trancadas e intransponíveis, apareceu esse Alguém, sabendo a senha na ponta da língua. Usou de um traje único, fazendo-me aprender a vestir novos trajes; despiu-se e me encontrou de alma e pele nuas, após nada me servir. Entendi assim que calar é uma arte quando são os corpos que gritam. Foi como se todos os abraços e beijos do universo não fossem suficientes e, de tanto provocar e testar meus limites, ele me libertou. Leu-me com exaltação e colou como a lembrança insana na memória dos dias e assim o libertei também, provando que o amor dura exatamente o tempo que pode durar.

E quando já me sentia governanta dos meus confins, Alguém se convidou para um café e se demorou, porque havia uma vida inteira de dores e sonhos a dividir e as horas eram pequenas demais para tanto. Foi embora muito depois, levando de mim um pedaço, mas logo voltou para me devolvê-lo e resgatar o que de si havia abandonado aos meus cuidados. E passou a ir e voltar deixando fatias cada vez maiores de si e me levando cada vez mais, quase inteira. E nessa troca contínua nos encontramos um ao outro. Não havia mais como ir pois ele e eu já éramos. E enfim estacionou. Permaneceu. As horas continuam passando, muitos cafés foram coados e nem todas as dores nos deixaram. Mas de sonhos nos alimentamos e vivemos os dias sem pressa, lendo nossos capítulos nesse livro que ainda está sendo escrito com devoção.



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4 comentários

  1. Que esses "alguéns" sempre possa nos preencher de alguma forma em diferentes momentos.

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  2. Olá!
    Que crônica linda! Gosto muito desse tipo de texto, que nos faz refletir sobre a vida de forma mais profunda. Achei incrível a forma como consegui visualizar cada um desses "alguém" como pessoas diferentes e é interessante a forma como cada um traz algo de bom ao narrador. Isso até nos faz refletir: será que o amor é apenas de um único modo ou será que confundimos muitas coisas com amor? Amei o texto. Beijos!

    Jéssica Martins
    castelodoimaginario.blogspot.com

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  3. Adoro crônicas, pois sempre me permitem repensar e refletir sobre algumas coisas da vida. Adorei essa, está muito bem escrita! As pessoas acham que ser sozinho é o mesmo que ser solitário, mas às vezes é melhor desta forma.
    beijos

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  4. Que crônica mais maravilhosa! Acho que a vida é isso, né? Muitos alguéns, sempre. Levando algumas coisas nossas, deixando outras, e assim vamos.. Me fez refletir sobre muitas coisas, parabéns pelo trato com as palavras.

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